A Família, segundo a ANÁLISE PSICO-ORGÂNICA (APO)

Delfina Pimenta

           De que forma o incs se origina?
           No impulso primário, no caos e em formas organizadas também: do que é inato, da herança filogenética e também do eu, do superego maternal e familiar. É um conjunto de forças que vai constituir o incs. O incs é um conceito dinâmico, não é estático. Está em constante relação a diferentes instâncias.
           Para Freud o incs começa com o que ele chama de recalque primário e as primeiras diferenciações entre mãe e bebê. A partir do indiferenciado psicossomático original, a criança vai passar de uma relação fusional com a mãe a uma relação de objeto. Essa passagem de uma relação indiferenciada a uma relação objetal é o que Freud chama recalque primário, onde a criança diz sim ao objeto real e recalca o objeto que ela não pode ter. O incs se estrutura a partir da diferenciação , da separação. O incs inicia quando a criança se adapta ao seu meio ambiente e aceita estar contente e satisfeita com alguma coisa e abandona o desejo de estar sempre satisfeita, plenamente satisfeita. O incs está ligado ao impulso primário que é recalcado. A criança quer ter sua mamadeira e não pode tê-la naquele momento, só pode tê-la num outro momento. O impulso primário vai para o incs, é recalcado, e a criança vai novamente pedir. O incs vai pedir para ter satisfação, ainda, sem organização. O incs vai se deslocar de um objeto para outro, se não é o leite, que seja o olhar, se não é o olhar, que seja o toque, se não é o toque, que seja a música. Depois de diferentes objetos em todos os sentidos, talvez o impulso volte na direção do leite, diferente do primeiro impulso. Não existe não no incs, sempre existe o sim. Sim, é satisfação da pulsão. Então, é um conjunto de forças que vai constituir o incs. A gente pode dizer que o incs é corporal, visceral, vegetativo. O recalque é contração e a manifestação do incs é expansão. O corpo, as lembranças, as imagens, as situações, as palavras, as emoções, as sensações elétricas, magnéticas, todas as manifestações do organismo vivo, constituem o incs. O incs está sempre a favor do impulso primário.
            Não é possível ter tudo, não é possível ficar na fusão. O recalque primário é o fundador então da sensação da falta - falta alguma coisa. A criança vai beber o leite da mãe que se transforma no leite do neném quando está na boca do neném e no estômago do neném - e isso é bom. Mas falta a mãe. F. Dolto fala sobre as crianças pequenas e diz que se elas vomitam muito, se regurgitam o tempo todo, não é exatamente porque rejeitem a alimentação, mas porque querem a alimentação dada com amor. Não é só de alimentação que precisa, mas de uma nutrição que vá alimentá-la psiquicamente, que vá trazer a nutrição psíquica - o amor - num espaço simbólico, para que o imaginário possa funcionar. Crianças bem pequenas quando olham suas mães tomam a mãe com os olhos, é quando a criança precisa desse espelho, ao mesmo tempo que necessita de contato físico, de contato ocular imaginário e do contato simbólico através das palavras.
           A passagem ao princípio secundário da realidade é uma conseqüência dos limites que a gente recebe do meio ambiente sobre o desejo de satisfação do sujeito. É a reação secundária que fala não quando alguma coisa é desagradável, a gente fala não para encontrar o contato com o impulso primário que diz sim a alguma coisa que satisfaça e também para o compromisso que se constitui a partir do recalque. Mas o impulso primário, a energia primária, é a energia do incs. O impulso primário vai se transformando na passagem para o pré-consciente. A criança vai trabalhar nessa relação dos limites por volta dos 2 anos, estágio anal, quando consegue controlar a contração dos esfíncteres, quando pode controlar a sua postura ereta, sua musculatura, o espaço em torno de si, é quando a criança aprende o controle de si próprio e do mundo e também aprende a se dizer não em relação ao que não pode controlar, porque ela pode dizer sim ao que pode controlar. O bebê necessita da mãe que lhe fale, até o primeiro ano, que coloque palavras na vivência para que ela integre essa vivência, para ela ligar a palavra com a emoção, com o sentimento. Aqui não há articulação entre o sentir e a simbolização, nesse momento não há atividade consciente, de elaboração, de análise, de percepção. Vem do inconsciente. É preciso o outro para explicar, para colocar palavras numa sensação, numa situação vertical, arcaica.
           No conceito yunguiano o incs não é apenas o recalque primário do impossível, do objeto total, o recalque da identidade sexual e o recalque edípico, onde é interditado ter uma relação sexual com o sexo oposto (pai ou mãe), que são recalques no incs e conceitos freudianos do incs. Para Jung o incs é também uma organização da libido, porém, mais profundamente, o incs é um produto da organização coletiva da cultura, da religião, das crenças, do simbolismo de ser humano desde a origem, onde estão os arquétipos arcaicos que são recalcados no incs.
           Anne Fraise denomina de incs pessoal tudo o que pertence à história da pessoa: o nascimento, o pai, a mãe, a educação. E de incs coletivo tudo que está para além do indivíduo e a sua família, ou seja, a sociedade, a cultura e a história. Nós somos marcados por tudo isso. Então com o genograma vamos trabalhar entre o indivíduo e o coletivo, acompanhando o processo de transmissão através das gerações.



           Nós somos formados de todos esses níveis. Enquanto indivíduos trazemos uma cultura, uma sociedade, uma família. O genograma toca todos esses níveis. Por exemplo, a relação com o dinheiro fala da organização da sociedade, da cultura, dos ancestrais. Todos esses níveis existem no cenário da pessoa.
           O incs coletivo é um conceito junguiano. Freud introduziu o incs e a noção do incs freudiano está ligada ao recalque, o que não lembramos, o que é diferente do incs de Jung, pois para ele é ao mesmo tempo o que não lembramos, o recalque, mas também, todo o potencial não encarnado e ele introduziu a noção de incs coletivo a partir da sua prática porque ele percebeu que escutando os sonhos de seus pacientes havia elementos culturais e transculturais e a partir dessas reflexões ele introduziu os arquétipos e o incs coletivo, no sentido de que todas as sociedades têm a criação de mitos. A criação de mitos não vai ser a mesma em função de tal cultura. Mas o que é transpessoal é que todas as civilizações precisam de mitos. É a mesma coisa com a família. Existem discursos e mitos familiares.
           O conceito de transmissão transgeracional está ligado à árvore genealógica. A transmissão podemos fazer de forma consciente, e de toda forma ela se faz de forma inconsciente. Na árvore existe a transmissão dos nomes de família geralmente consciente, a transmissão das heranças, quando se faz um testamento é bastante consciente e tem transmissão que é metade consciente e metade inconsciente como, por exemplo, a transmissão da profissão, quando um pai transmite a sua para o filho, ele está consciente de transmitir um instrumento de trabalho, sua forma de fazer, de ganhar a vida, mas pode também ser inconsciente porque ele transmite para o filho e não para o outro filho. Quanto mais segredos existem na família, os não ditos, mais a transmissão se faz de forma inconsciente. Segredos de família podem ser: ter um louco ou vários, ter um criminoso ou alguém que foi preso, incesto, crianças adúlteras, ilegítimas, abortos, crianças que nascem mortas, falências, ações políticas ancestrais (difícil ter um avô fascista ou nazista).
           Na APO o incs é situacional. Para Paul Boyesen o incs não é só cultural ou coletivo. O incs está ligado a um sentido que precede a existência da consciência do sujeito. Existe um sentido antes da consciência que a gente possa ter de nós mesmos. E esse sentido é incs. Para o ser humano, a partir do momento da concepção a semente do ser humano já contém na origem o sentido do ser humano que ele vai ser, o sentido de ser humano, não uma árvore ou uma planta, portanto um sentido mais complexo. Já se nasce com um sentido que precede a existência, na origem, a existência cósmica original.
           O inconsciente situacional é sempre relacional, o que difere do inconsciente da psicanálise. O inconsciente de Freud é um incs biológico, que tem a ver com a sexualidade infantil. O incs de Yung tem a ver com a estruturação através da humanidade de um certo número de arquétipos que vão estruturar as grandes formas do incs. Na APO pensamos que esse incs biológico é um incs coletivo e se estrutura sempre na situação, e que é no encontro com o outro que o mundo da pessoa vai tomando forma. O incs situacional não é apenas uma resposta funcional, boa ou ruim, mas inclui toda a complexidade da situação. Por exemplo, ser do Rio significa que eu pertenço a um grupo particular, a um grupo social ou a um grupo cultural. Nesse grupo social, cultural, eu pertenço a uma família, e nessa família, que é transgeracional, existe meu pai e minha mãe. Talvez eles se gostem, talvez não. Talvez exista a avó que mora na casa, há irmãos. Tudo isso cria um contexto particular que consiste numa situação. Por exemplo, falar "mamãe não me olha, não me vê", também está dentro deste contexto amplo. Não é apenas a mãe sozinha, é também o contexto, a situação, onde cada pessoa existe individualmente. O incs situacional inclui múltiplos níveis, inclui toda a complexidade da situação, e a situação é sempre alguém outro, é o que mobiliza o meu movimento de vida. Então a situação é sempre uma situação relacional, e é nessa situação que se estabelecem os contratos.
           O contrato é uma forma dentro da qual eu me encontro. Por exemplo, na minha casa existe uma luminosidade, um cheiro, uma forma, um ambiente. Os contratos são pequenas casas na relação, é uma forma onde eu me reconheço. Os contratos dependem da minha estória, e algumas vezes precisamos modificar esses contratos, para poder transformar, modificar um sintoma. O contrato é um acordo. O contrato é um engajamento relacional. Não existe um contrato sozinho, ele é uma troca na ação, na negociação, e o outro também. Os contratos no incs são relacionais, consigo, com o outro, com vários outros (a criança em você, a criança de sete anos, o bebê de um mês, pode ser um contrato comigo adulto, responsável, tipo contrato eu-mãe ou eu-pai) e fundam-se a partir das faltas ou das impressões que vão marcar, e essas faltas vão se imprimir no corpo, na psique, no espírito. São contratos relacionais meus. Pode ter também um contrato relacional com uma instância psíquica, como por exemplo, qual é o meu contrato com a minha parte instintiva, com o animal em mim mesmo, será que eu deixo esse animal viver? Qual é a relação que tenho com a minha imagem, a confiança que eu tenho no meu corpo, na minha imagem interna e na que os outros me devolvem? Qual é o contrato que eu tenho com o meu superego, com o meu superego maternal, com o meu superego paternal? Tudo isso são contratos. Tudo isso é relação, diálogo, negociação, troca, transação.
           Em psicanálise fala-se em formação no incs, e na APO fala-se em contrato no incs porque os contratos servem para ficar em relação com alguém, consigo, com alguém outro, com o grupo, com o corpo social, cultural, histórico, político, etc. Os contratos no incs são formações de compromisso do recalque, para se manter contato com o impulso primário. Ex.: cr pede beijo à mãe. A mãe não pode porque está ocupada. Ela fala para a menina pegar suco. A criança fala na primeira vez: não eu quero beijo. A mãe fala - pega o suco, estou ocupada. A menina continua pedindo, após algumas tentativas, ela pega o suco. Ela pega o suco como o beijo e, quando crescer, quando pedir um beijo ao marido, vai pedir o suco. O contrato no incs é que ela pede suco para guardar o amor da mãe, o suco representa o amor da mãe. Seu contrato se transformou em não pedir um beijo porque o outro não tem tempo. Para guardar o amor do outro é importante amar o suco e pedir suco para se sentir amada. Não pedir o beijo é o contrato no incs. Quando ficar adulta vai escolher um homem que não goste de beijar. Desta forma ela continua se sentindo amada pelo homem porque o homem e a mãe estão de acordo para manifestar o seu amor não se beijando.
No contrato, então, há um engajamento relacional, você se engaja numa relação, você se engaja a receber alguma coisa do outro e a dar alguma coisa. É uma troca na ação, na negociação e o outro também. Os contratos se fazem no incs, e são familiares e relacionais. Os contratos relacionais são aqueles que fazemos no horizontal da relação, onde o outro faz a demanda. No contrato relacional eu peço ao outro para me ajudar numa parte de mim mesmo que eu não conheço tanto, e com a qual eu sofro. Mas o outro também pede alguma coisa de volta , ele não é apenas o meu objeto. Os contratos familiares estão relacionados às diferentes etapas da árvore geneálogica. Os contratos familiares compreendem os contratos dos indivíduos, da família entre si, com a sociedade, a cultura, a história e também os ancestrais. Exemplo de um contrato na família: contrato onde o pai não transmite lei porque há a tradição familiar de que as leis não são confiáveis. Os contratos podem ser estáticos e podem ser dinâmicos, transformacionais. O contrato estático é o que funcionou e que o sujeito precisou pra si, dentro da dinâmica da família, como forma de sobrevivência e manutenção da própria saúde.
           Os contratos podem ser estático ou transformacional. O contrato estático é aquele que permance imóvel, fixado num padrão original, a partir das relações, a partir da interação da criança com a mãe e com o pai, a partir do que ela sente e ouve, e aí vem as frases chaves, que ela introjeta, e que se tornam um contrato. Mas na profundidade não é seu, é do pai, é da mãe. Por exemplo, a pessoa que ouve do genitor que ela não deu pra nada. De quem é essa formulação? Quem é que não deu certo? A partir daí começa um trabalho de distinção. Essa frase pode ser do pai, como uma projeção sobre o filho, decorrente de uma frustração da vida do pai. Trata-se então da tarefa de criar um trabalho de distinção, que consiste em soltar a frase chave, frase do pai ou da mãe e que a pessoa tomou como sua, pessoal, e sair desse contrato estático em direção a um contrato transformacional, dinâmico, onde o indivíduo possa estabelecer para si as suas frases transformacionais, engajadas em suas necessidades profundas, no seu desejo, cuja fonte é o campo orgânico, corporal, lugar de referência da energia primária, a energia de vida. O contrato transformacional, ao contrário do estático, é dinâmico e passível de ser atualizado sempre que o indivíduo apresente uma nova necessidade ou faça contato com um novo desejo, podendo atualizar-se, atualizando suas imagens e permitindo deslocamentos necessários em seu espaço de vida pessoal e relacional. Através do contrato transformacional ocorrem rupturas de contrato na relação familiar, propiciando rupturas no processo da transmissão para a geração seguinte, interrompendo o processo da cadeia transgeracional.


           Delfina Pimenta - Professora de Graduação e de Pós-Graduação em Psicomotricidade, Psicóloga, Psicomotricista e Psicoterapeuta Corporal formada pela EFAPO/CEBRAFAPO.

           O texto foi fundamentado nos seminários de Formação em APO do Centro Brasileiro de Formação em Análise Psico-Orgânica (CEBRAFAPO), vinculado à Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica (EFAPO), no Rio de Janeiro (RJ), no período compreendido entre 1998 e 2001, realizados pelos seguintes formadores: Paul Boyesen, Joelle Boyesen, Anne Fraise, Yves Brault, Jaqueline Besson, Eric Champ, e Silvana Sacharny.

ANTHROPOS - CENTRO DE DESENVOLVIMENTO DO HOMEM
Aula para o Curso de Formação em Psicomotricidade 30.10.2001

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