Ana Maria Crepaldi Chiquieri *
"Tornamo-nos o que somos, quando nos recusamos a ser como nos fizeram". Jean-Paul Sartre
Para falar de Educação, é preciso agir e pensar com amor, paixão, dedicação, carinho, aconchego, acolhimento e muito mais. É preciso entrar num contexto mágico da imaginação, dos símbolos, dos mitos, dos sonhos, para deixar fluir o conteúdo científico, com muito amor pedagógico, que envolve o ato de planejar, organizar e avaliar o conteúdo científico a ser trabalhado e acolhido. Será bem-vindo se o educador souber se acolher, souber acolher a leitura sobre seus sentimentos, sobre as suas emoções, pois o acolhimento do outro se processa através do nosso acolhimento. Se sei me acolher, saberei acolher e entender o outro, através do meu processo de vida.
No processo histórico da humanidade, a ciência cooperou no estudo de questões existenciais através de pesquisas, dos questionamentos, das observações, dos experimentos, até chegar a teses consideradas válidas. Entretanto, nós, seres humanos, precisamos urgentemente ir em busca de nós mesmos, entrar no nosso mundo micro, para conhecer e seguir parâmetros éticos, nas nossas virtudes e nossas vicissitudes, para equilibrar nossos sentimentos a partir do nosso conhecimento em prol, primeiramente, de nós mesmos, para sermos cada um uma pessoa a mais no planeta equilibrando-se. Se o micro se equilibra, essa onda energética, esse impulso ajuda a ajustar o macro (universo).
A consciência desse processo precisa ser explicitada, estudada e vivenciada na Educação em geral. A terra também aguarda mudanças nos relacionamentos interpessoais, através das introspecções de cada um.
No processo de individuação, Jung (apud Silveira, 1997, p.77) entende que esse processo não é linear; ele é um movimento de circunvolução, pois conduz a um novo centro psíquico, denominando esse centro de SELF (si mesmo). Quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se em torno do self (si mesmo), a personalidade completa-se. O self será o centro da personalidade total, plena, comungando consciente e inconsciente. Através desse processo de autoconhecimento, o educador será capaz de tomar consciência desse movimento e influenciá-lo através das suas análises, pesquisando no seu fórum íntimo e se identificando num processo mútuo, com e na relação com o outro.
Silveira (1997, p. 77) completa esta reflexão, explicando:
"Todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer, a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do animal. Assim é para o homem, quanto ao corpo e quanto à psique. No confronto do inconsciente com o consciente, no conflito como na colaboração entre ambos, é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro." |
| A maioria dos educadores, ainda no modelo cartesiano, alienados, deixam de viver e conviver com novos paradigmas, como o paradigma sistêmico. Para tal, antes de adentrar o
macro-sistema do tema, vamos analisar o micro-sistema, o nosso eu, a nossa estrutura. Precisamos saber mais de nós, da nossa estrutura sociocultural e ter confiança, desprendimento para viver e conviver nas diferenças e com as diferenças individuais, nossas e dos outros. Para assumir verdadeiramente nosso papel na construção e reconstrução como educador.
Assim se expressa Capra (1999, p. 46) sobre o paradigma sistêmico:
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"Na mudança do pensamento mecanicista para o pensamento sistêmico, a relação entre as partes e o todo foi invertida. A ciência cartesiana acreditava que em qualquer sistema complexo o comportamento do todo podia ser analisado em termos das propriedades de suas partes. A ciência sistêmica mostra que os sistemas vivos não podem ser compreendidos por meio da análise. As propriedades das partes não são propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo maior. Desse modo, o pensamento sistêmico é pensamento "contextual"; e, uma vez que explicar coisas considerando o seu contexto significa explicá-las considerando o seu meio ambiente, também podemos dizer que todo pensamento sistêmico é pensamento ambientalista." |
| Pestalozzi (apud Lopes, 1981, p.88) , na sua teoria do amor pedagógico, nos ensinou que
"Educação é orientar na direção do bem. Muito mais do que ensinar nomes, datas, fórmulas e equações. A educação é um processo de mergulho interior para que haja um autoconhecimento e, ao mesmo tempo, para que a criatura encontre a sua essência sagrada, a luz divina, que está em todos. No retorno do grande mergulho, a criatura passará a viver como um ser útil, vibrante, acolhedor e construtivo.
Um grande sábio da antiguidade dizia que o ser humano não é um balde onde se derramam conhecimentos. É, antes, uma lareira, com fogo próprio. Educar é levar gravetos da humildade, da modéstia, da tolerância, da solidariedade, para o interior da lareira humana. O foguinho interior fará com que tais gravetos, crepitando, transformem o ser. Aí, a criatura, por onde andar, levará luz e calor".
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| Nesse sentido, como se processa essa integração professor-aluno? Existem vários caminhos que levam a esse universo micro e macro dos relacionamentos interpessoais. Começaremos pelo respeito e reconhecimento do nosso Ser. Como sou? Como ajo? Como me percebo e como percebo o outro? Como me julgo e como julgo o outro? Essa relação também se processa através das minhas vivências, da minha história de vida. Eu consigo fazer aquilo que vivi e que vivo; eu geralmente reproduzo aquilo que aprendi.
Nesse contexto, eu posso procurar conhecer-me, nas e para além das interpretações e percepções dos meus pensamentos, atos, atitudes e ações, comungando no cotidiano não só escolar, mas também nos relacionamentos extraclasses e nesses processos das observações e vivências, aceitando-me, percebendo-me também através do outro, para poder auto-avaliar-me, autoconhecer-me e autotransformar-me. Eu me observo. Eu me percebo. Eu me conheço. Como? Para Paul Boyesen (apud Sacharny), a questão do "por que eu vivo" é importante, mas também o "como eu vivo", e nesse "como", dentro desse processo sentimento/expressão/situações, que o professor-terapeuta, vivencia para poder acolher com carinho, com amor e, muitas vezes, através da dor dos seus alunos, pois através desse processo contínuo eu posso comungar mais confortavelmente nas e para as diferenças individuais e coletivas. Este é um estudo da análise psico-orgânica. Serei observador e pesquisador no meu laboratório íntimo, através das minhas vivências e no encontro com o outro.
Sacharny (2000) resume esse processo assim:
"O sujeito carrega e traz sua história no seu encontro com o outro. Não se pode mudar o seu passado, mas pode-se mudar a experiência do seu passado, ou seja, trazer à consciência o olhar de um outro lugar, podendo no presente fazer uma outra opção. Nesse nível, trabalhamos com a cadeia associativa no acesso às imagens, com visualizações e sonhos. Procuramos perceber como o indivíduo traz sua história, sua linguagem somática, emocional e psíquica. Apoiamo-nos na tríade sentimento/expressão/situação. O sentimento se refere à percepção e à forma de sentir, poder nomear seus afetos e dar corpo a esse sentir. A situação fala de como a pessoa introjetou a sua experiência, remetendo-se a um corpo subjetivo, fantasmático, ao registro das imagens. A expressão é a capacidade de externar, poder colocar em cena os afetos, as representações mentais e, dessa forma, reelaborar, redinamizar o que havia paralisado. Este processo vai possibilitar um dinamismo transformador, tocando no potencial criativo que não encontrava acesso para a sua expressão". |
| Vivenciei este processo através da minha terapia, dentro desta abordagem, durante oito anos, e ainda vivencio. Pude ser aluna desta abordagem no curso de pós-graduação, franco-brasileiro, na CEBRAFAPO, em Análise Psico-orgânica, durante três anos e meio, teórico- vivencial e, neste momento, durante um ano e meio de supervisão. Resolvi, através desse processo, abordar e vivenciar numa adaptação em princípio experimental na sala de aula , nas disciplinas que leciono, Didática e Prática de Ensino de Economia Doméstica, Didática Geral e algumas disciplinas da Pós-graduação, na UFRRJ.
Adaptei nas disciplinas citadas, nos momentos de reflexões, a teoria exposta, sobre sentimento/expressão/situação (SES), com o objetivo de formar educadores para além do conteúdo científico, na introspecção através de outra tríade, auto-avaliação/autoconhecimento/autotransformação. O outro objetivo é atender uma demanda, que ocorre em nível mundial, por novos paradigmas holísticos em prol das mudanças de consciência planetária. A Terra aguarda as nossas mudanças, para juntos nos libertarmos, harmonizando e equilibrando o planeta. Essa consciência planetária de respeito, de solidariedade, de fraternidade, de amor e muitas outras virtudes que estão bastante ausentes ainda na nossa história universal, como a ação crítica e comprometida com a solução dos problemas vitais do planeta e de seus habitantes. E esse processo se faz através da educação do Ser como Ser integral e holístico, somado ao conteúdo científico das disciplinas.
Essa abordagem relatada é desenvolvida no início das aulas, através de um pensamento reflexivo, escolhido cada semana por um aluno. Ele escreve o pensamento no quadro-de-giz. Depois de lido, é reservado um tempo para a verbalização das sensações através do processo SES: o que eu senti quando foi lida a frase? Como posso expressar esse sentimento? E qual foi a situação?
Sugiro que os alunos fiquem na sua introspecção nesse momento de estudo, e não fiquem preocupados em reproduzir cientificamente a frase, nem tampouco lembrando como o outro age, ou o que a sociedade pensa de mim. Esse momento é só do aluno, procura se perceber. É um exercício novo para eles, mas, com paciência, amor pedagógico e disciplina, caminhamos juntos, eu e os alunos, adentrando esse novo universo, durante dois semestres.
Depois dessa atividade, distribuo um texto reflexivo, digitado especialmente para cada encontro, para refletir e exercitar sobre a ética educativa, através das minhas atitudes, dos meus atos, do meu Ser, reconhecendo-me para poder acolher o outro nas diferenças. Sempre procurando orientá-los, que o processo se desenvolve e se estrutura a partir do micro, do mundo de cada um.
A seguir, é desenvolvida uma dinâmica de grupo a cada aula. São dinâmicas de apresentação, sensibilização, desafios, recreação, relaxamento e de avaliação, com o objetivo de refletir sobre a sua prática educativa, que depois, exercerão como futuros profissionais nesta área.
Enfim, depois dessas atividades reflexivas, passamos para o conteúdo programático das disciplinas, bem mais conscientes da importância das inter-relações no processo educativo a partir do reconhecimento, como indivíduo e educador. Isto é, o aluno percebe o outro a partir do seu processo de vida e das suas vivências, nas diferenças interpessoais.
Durante o semestre, o aluno é convidado e orientado para escrever suas memórias a partir do seu nascimento, ou antes, com a ajuda da família, com o objetivo de continuar sua auto-avaliação, seu autoconhecimento e autotransformação em direção do seu mundo, para poder, através das suas reflexões, das suas vivências, acolher-se e acolher o outro. Juntamente com a pesquisa e desenvolvimento das suas memórias, o aluno desenvolve e estrutura a árvore genealógica, que também servirá de estudo, análise e pesquisa para sua autotransformação. Esses trabalhos de final de curso fazem parte da avaliação da disciplina, assim como a participação, assiduidade, disciplina e respeito ao grupo de trabalho no qual se encontram nesse momento.Essas reflexões retornam no semestre seguinte na disciplina de Prática de Ensino, com a análise da disciplina dada e dos trabalhos dos alunos. Essa análise se processa através do viés da Análise Psico-orgânica, das minhas vivências como professora e do meu enfoque holístico do mundo.
Durante cada semestre, como prática da disciplina, os alunos desenvolvem oficinas nas áreas de nutrição e alimentos, habitação, higiene e saúde, educação do consumidor e vestuário, com o enfoque científico da disciplina de Economia Familiar e Doméstica somado à leitura dos sentimentos vivenciados anteriormente e dialogando com a comunidade, através dos textos reflexivos e dinâmicas de grupo, como estrutura fundamental de abertura e finalização das oficinas dadas. Através das avaliações e depoimentos das comunidades e do aluno-mestre, este método de trabalho a cada semestre se aprimora e se estrutura na direção do acolhimento nosso e do outro, com muito amor, carinho, compreensão e paciência.
E deste processo nasceu o Projeto Afetividade, que foi executado numa escola estadual, com dez professoras, sob a minha coordenação e acompanhamento de dois alunos da disciplina de Prática de Ensino a cada encontro. O percurso do Projeto Afetividade foi desenvolvido através de dez encontros semanais com três horas de vivências teórico-práticas. A metodologia usada foi semelhante à da sala de aula, a leitura reflexiva e crítica de um texto sobre um sentimento, conforme o cronograma do projeto, com a abertura ao grupo dos questionamentos, das vivências pessoais e da troca de afeto, no acolhimento, compreensão e carinho, dentro dessa nova leitura amorosa dos sentimentos para irradiar e adentrar uma nova Educação, com o amor pedagógico que os alunos, os professores e as comunidades aguardam para a reestruturação de um mundo pautado nos valores de fraternidade e solidariedade.
Esse plano de atividade pedagógica é uma sugestão inovadora e trabalhosa, mas profícua e restauradora, para o grupo em ação, no seu processo de humanização, pois estamos sempre relembrando nas nossas atividades a importância de estar consciente do objetivo maior do homem aqui na terra: sua evolução. E essa evolução se processa através da microtransformação, para atingir e se completar na macrotransformação planetária.
O indivíduo, o ser, o homem precisa "introspectar", entender e assumir a direção de sua própria existência, na condição de ser humano que habita com os demais seres vivos esse Planeta. Para tal, deve perceber-se e perceber o outro, não só como ser intelectual e racional, mas como um ser físico, mental, emocional e espiritual.
Na dimensão física, o homem procura alimentar-se bem, saciar sua fome, sua sede, sua estética, enfim, manter sua saúde física.
Na dimensão mental, o homem busca o conhecimento científico. Analisa, pesquisa, questiona, aprende e reaprende incessantemente, impulsionado pela sua necessidade, ousadia, criatividade e especialidades.
Na dimensão emocional, o homem, em sua grande parte, procura conviver sem "introspectar" o necessário para se conhecer e saber lidar, acolher e nomear os seus sentimentos de amor e desafeto, de abandono, da bondade, da culpa, da paciência, do ódio, do perdão, do orgulho, da vaidade, da falta, e assim sucessivamente.
Na dimensão espiritual, o homem, à sua maneira, busca o alimento para a sua alma, na meditação, na introspecção, na oração, na observação e no contato com a natureza e sua beleza universal. O homem é um ser espiritual na sua essência. O homem é um ser transcendental.
Se perpasso essas quatro dimensões, consigo fazer e entender melhor o outro nas inter-relações.
Se percebo e revejo meus relacionamentos nessa amplitude sistêmica, ficam mais saborosas e trabalhosas as relações interpessoais.
Assim, os homens devem mudar, para poder iniciar uma unificação do crescimento técnico-científico com a humanização do planeta. Nessa proposta, com uma abordagem de humanização do planeta, a educação deve estruturar-se e compor-se muito mais na dimensão ética, inserindo valores humanos que possam estar perpassando os conteúdos científicos e, para tal, essa proposta, como foi explicada, se inicia baseada nessas dimensões e reflexões finais que idealizei para didaticamente agilizar o processo que cada educador deve vivenciar em si, para poder orientar seus alunos em novas abordagens holísticas.
Referências Bibliográficas
CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida.São Paulo:Cultrix,1999.
LOPES,Luciano. Pestalozzi e a Educação Contemporânea. Duque de Caxias: Centro de Editoração e Jornalismo da AFE,1981.
SILVEIRA, Nise. Jung: Vida e Obra.17 ed.rev.Rio de Janeiro:Paz e Terra, 2000.
SACHARNY, Silvana. Comunicação Pessoal. 2000.
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