Expressão Corporal na Prática da Arteterapia

Ana Luisa Baptista

RESUMO:
      Sendo um dos canais expressivos da Arteterapia, a Expressão Corporal abrange uma infinidade de técnicas e de propostas onde o toque, a massagem e o movimento estão intrinsecamente vinculados. Estes, porém, talvez por sua especificidade acabam sendo pouco utilizados pelos arteterapeutas em geral e a leitura corporal é, portanto, desconsiderada em detrimento às outras formas expressivas.
      O presente artigo tem como proposta enfatizar a importância do trabalho corporal na Arteterapia, mostrando como este pode ser, em alguns casos, o fio condutor do processo arteterapêutico.

ABSTRACK
      Corporal expression, one of the most significant channels of Art-Theraphy, includes a great nunmber of techniques and proposals where touch, massage, and moviment are intrinsically connected.
      However, maybe because of their particularity, these techniques are too rarely applied by a great number of art-theratists, and the reading of coproral expression neglected in favor of other expressive form.
      This article aims at emphazining the importance of corporal work in Art-Therapy, showing how, in some cases, it may become the best guide for the Art-Therapypeutic process.


... o espírito é a vida do corpo, vista de dentro, e
o corpo é a revelação exterior da vida do espírito..."

(JUNG, 1928, C.W. Vol. X, §195)
"O corpo percorre uma história tecida de palavras, ações, afetos, contatos, sensações.
É um corpo pessoal, individual,
e também nesse corpo está o corpo familiar e social.
As histórias convivem entre si.
Em um percurso biológico,
relacionado com prazer e angústia, unidade e fragmentos, reparação e destrutividade".

(Mário Buchbinder - A Poética do Desmascaramento: os Caminhos da Cura -
SP: Agora, 1996 - p. 82)



EXPRESSÃO CORPORAL E ARTETERAPIA

      Tantos os processos biológicos quanto os psíquicos se processam no corpo, de forma que não se pode falar em corpo e mente separadamente. Ambos refletem-se um no outro mutuamente e o tempo todo.
      Nossa psique está registrada no corpo. As primeiras vivências, desde a fase intra-uterina, configuram qualidades emocionais que surgem a partir das sensações físicas. Estas deixam um registro de situações vividas e/ou vivenciadas sensorialmente, formando nossa memória corporal.
      Ao trabalhar o corpo nos conectamos diretamente com essa memória, trazendo lembranças de sensações e, às vezes, de conteúdos esquecidos.
      A Expressão Corporal é um dos canais expressivos da Arteterapia. Tem como proposta favorecer experiências diversas que levem a consciência e ao conhecimento corporal, buscando a organização e a reorganização do movimento através da criatividade, tanto de forma individual como coletiva.
      Por um lado, o trabalho corporal se dá através do toque, das técnicas de massagem e de respiração, da leitura corporal, da dança, da movimentação espontânea ou conduzida. São utilizadas técnicas de diferentes correntes de terapia psico-corporais que contribuem não só para a dinamização de movimentos, como para a leitura corporal. Estas permitem a vivência do

... corpo profundo ... despertando um vivido antigo enterrado em nossa pele, nossos
músculos, nossas articulações, nossas vísceras, e aquilo que não podia nem ser
pensado, nem dito, e às vezes mesmo nem percebido, é despertado através do
movimento, do experimento e das emoções (1).

      Por outro, abrange o enfoque simbólico, tendo como foco a ampliação da consciência e o fortalecimento do ego.
      A consciência do movimento corporal facilita a assimilação de nosso mundo interior, provocando mudanças significativas em nossas vidas.
      Diretamente vinculado ao movimento, encontra-se o universo sonoro. O som é, na realidade, uma vibração que chega aos nossos ouvidos na forma de ondas, percorrendo todo o nosso corpo. Encontra-se em toda parte, inclusive dentro de nós. Todos os nossos órgãos estão em constante movimento. Cada célula do nosso organismo pulsa sem parar, produzindo um som e um ritmo que junta-se ao som e ao ritmo de outras células.
      Quando se juntam os canais da Expressão Corporal e da Música em Arteterapia, isto é, alia-se música e movimento, atenuam-se as defesas, promove-se uma baixa de identidade e induz-se a vivência de situações regressivas, de transe ou semi-transe, mais ou menos profundos, de acordo com os bloqueios, couraças e dificuldades de cada um.
      Tanto por meio do movimento, como da música ocorre um trânsito energético entre consciente e inconsciente, entre Ego e Self. Este permite que haja uma comunicação entre todas as partes da psique, acabando por abrir caminhos para que idéias, lembranças, emoções e símbolos possam surgir e serem integrados pela consciência, favorecendo a individuação. Por levar o sujeito a um contato com os núcleos arquetípicos mais profundos, possibilitam a vivência de complexos no aqui e agora e, também, a emersão de imagens arquetípicas, concretizadas nos gestos, na dança, no toque e nas formas corporais.
      A expressão corporal fala para além das palavras, trazendo uma ponte direta para o universo imaginário e simbólico. É do movimento espontâneo que nasce o arsenal simbólico de cada um. Deste participa não só a consciência, mas a totalidade psíquica: o Self.


TOQUE E MASSAGEM
      Na prática Arteterapêutica utilizo-me tanto leitura Junguiana, como da Análise Psico-Orgânica, onde se incluem técnicas psico-corporais através do movimento, de percursos de massagens biodinâmicas e do toque.
Entendo tocar como "entrar em contato com". "O toque é sentido com a ajuda do qual por contato direto nós reconhecemos a forma dos corpos, dos objetos" (2).
      Ao tocar o corpo toca-se o não manifesto em suas diferentes formas de expressão, influenciando o inconsciente e possibilitando o acesso a conflitos e emoções recalcadas que aparecem na forma de tensões musculares e por uma contração crônica do diafragma, operando "ao mesmo tempo sobre a postura e sobre a personalidade" (3). O toque favorece "a reapropriação do corpo enquanto unidade psicossomática; a vivência de integração entre a psique e o corpo" (4).
      O toque biodinâmico é sutil e não provocativo, embora ativo: estimula, apóia e facilita o que está escondido no corpo e na psique. Ele pode ser classificado por: a) Profundidade, que vai do etéreo (campo energético, evocando proteção); passa pelo deslizamento suave sobre a pele (trazendo a integração); aprofunda-se um pouco mais (dando a sensação de existência); chega à musculatura; e ao nível do osso; e b) Tipo de Contato: amassamento, deslizamento (movimento de estiramento - canaliza e direciona a energia) e polarização (chama a energia para ficar num determinado ponto).
      Já "... por massagem entendemos uma técnica esquematizada, facilmente reproduzível, centrada no soma" (5). Trata-se de um conjunto de toques organizados com uma intenção específica.
      Possibilita a atuação direta sobre a musculatura, permitindo o surgimento de lembranças, liberando emoções reprimidas, favorecendo que a respiração flua livremente do diafragma para o tórax. Permite que o corpo entre num movimento de extensão total, onde as energias vão em direção às extremidades e o sujeito volta a reagir.
      O trabalho terapêutico através da massagem pode ser uma das vias para o restabelecimento da comunicação tátil primária insuficiente. Este processo permite ao sujeito reconectar a confiança em si mesmo e na comunicação com o outro. Isto não significa negar o sofrimento, mas, sempre o considerando, poder acompanhar o indivíduo no reconhecimento de sua profunda existência. O toque biodinâmico centra a pessoa sobre si mesma. "Respeitoso e sensível, permite que a pessoa massageada perceba seu esquema corporal, aproprie sua segurança interna, o prazer de existir e aceitação dos limites - percepção a partir da membrana da pele - fronteira que separa o eu do não eu" (6).
      Além das reações afetivas, que são manifestadas por emoções e sentimento, a massagem trás reações energéticas e neurovegetativas, como: diminuição do ritmo cardíaco; mudanças peristálticas (abertura e expansão no movimento dos intestinos), modificações na respiração, mudanças térmicas; conexão com o imaginário e o simbólico através de lembranças, recordações e imagens arquetípicas; surgimento de estados energéticos diferentes: de bem-estar e prazer, meditativos, regressivos, de conexão com a própria vitalidade.
      As Massagens Biodinâmicas se organizam a partir de uma gama de intenções terapêuticas que partem da Provocação da Carga Energética, passam pela vitalização do corpo e chegam a uma Harmonização Corporal. As propostas de trabalho são organizadas em função dos níveis de bloqueio energético e da estrutura do sujeito.
      O toque se adapta ao tipo de energia ora visando recarregar e preencher, ora buscando o esvaziamento de forma a possibilitar o fluxo energético.
      As Massagens Biodinâmicas podem ser classificadas em:

      Massagens de Fluxo, que apontam para duas direções: a) Massagem Provocativa de Intenção Emocional (buscando elevar a carga emocional, favorecendo ab-reações emocionais e sua expressão); b) Massagens Vitalizantes Não-Emocionais (que estimulam o potencial energético, possibilitando a conexão com a vitalidade, identidade força e enraizamento.

      Massagens de Defluxo - que solicitam e favorecem o relaxamento e a eliminação do stress, possibilitando o reencontro com níveis mais sutis de regulação interna e de auto-regulação, reestabelecendo o equilíbrio orgânico e psíquico.

      Além dessas, são também utilizadas as Massagens do Corpo Etéreo, que trabalha com a energia de expansão, para além da pele, buscando a harmonização.


A PSICOSSOMÁTICA
      Todo sintoma que se manifesta corporalmente trás um sentido manifesto que envolve um simbólico latente. É, portanto, psico-corporal.
      Trata-se de

... uma expressão de um sofrimento que não encontra outra tradução, sendo
necessário descobrir sua verdadeira mensagem para que o indivíduo possa
abandonar esse modo de expressão (7).

      Sabe-se que a acumulação das emoções em decorrência da não expressão, ou do trauma psicológico "é particularmente aflitivo nos primeiros anos de vida, quando irá afetar o desenvolvimento físico assim como o desenvolvimento mental da criança em crescimento"(8).
      Todo o stress ocorrido durante as fases primitivas do desenvolvimento somato-emocional do indivíduo geram, em cada organismo humano, reações energéticas específicas, que servem de base para o desenvolvimento de doenças, no futuro, desse organismo (9).
      Um trauma é tanto mais grave quanto mais remoto, mais repetitivo, mais intenso.
      O trauma precoce ativa as defesas do Self, pois o Ego, ainda indiferenciado, está submerso nas camadas mais profunda da Psique. Trata-se de uma realidade pscóide, onde psíquico, fisiológico e inorgânico "são aspectos alternativos um do outro"(10). Neste nível o Inconsciente "... é neutro em caráter, não sendo nem totalmente psicológico nem totalmente fisiológico"(11).

Instintos ------------------------------------------------------------------- Arquétipos
Experiência
Infravermelho --------------------------------------------------------------------------- Ultravioleta

(Fisiológico: sintomas corporais,                sonhos, imagens, fantasias etc.)
percepções instintivas etc.)                     (Psicológico: idéias, concepções

O Arquétipo Psicóide (13)


      Cabe aos instintos fornecerem energia física para as imagens arquetípicas e, ao Arquétipo, dar forma e significado ao instinto através de seu preenchimento via símbolos.
      As áreas psicóides produzem efeitos "quase" psíquicos, como sintomas psicossomáticos, acontecimentos parapsicológicos etc.
      Assim,

Somos dotados de uma conexão consciente-inconsciente que leva, de um lado, a um
domínio puramente psíquico ou espiritual e, de outro, ao corpo e à matéria. Quando
nos dirigimos para o domínio do espírito, o inconsciente torna-se inconsciente psíquico,
quando nos dirigimos para a matéria, ele se torna inconsciente somático (14).

      O Arquétipo é, portanto, um conceito psicossomático, que pode ser experimentado ou apreendido através do corpo e da psique, do instinto e da imagem, visto que esses são aspectos de uma mesma e única realidade. Tais qualidades diferem-se somente porque a Consciência as percebe de forma diferente: ou de um ponto de vista mental/espiritual ou de outro material/incorporado.
      Quando a consciência surge, ocorre sincronicamente no físico e no psíquico, visto que é um sistema único que abarca essas duas categorias: uma de manifestação somática - através das sensações fisiológicas, dos dados biológicos, dos instintos, e outra, de manifestação psíquica - através de idéias, pensamentos, sentimentos, imagens e intuições. Assim, quando as manifestações se configuram excessivamente na parte psíquica, um desequilíbrio pode acontecer e a Psique tende a direcionar a energia para compensar a parte física tentando assim provocar o equilíbrio entre as manifestações ou funções. Nesta perspectiva a doença é uma reação orgânica que visa compensar uma atitude unilateral do sujeito.

Nossa mente inconsciente, bem como nosso corpo, é um depositário de relíquias e
memórias do passado ... Naturalmente traços de tal história (do sujeito) estão
presentes (no cérebro) como em todo o corpo ... (15)

      Na somatização

... é como se a memória emocional ficasse perdida no corpo e reaparecesse quando
situações atuais espelhassem um conflito semelhante àquele que originou esta cisão ...
Não há espaço para simbolizar verbalmente a dor emocional; daí ela ser vivida
corporalmente (16).

      Refere-se, portanto, a uma representação simbólica de uma desconexão ou perturbação no eixo Ego-Self, podendo manifestar-se organicamente, como uma doença corporal, ou psiquicamente, como uma doença mental.
      Quando a energia psíquica encontra-se investida no plano somático, se manifesta através de reações fisiológicas de determinados órgãos e suas respectivas funções. Neste plano, quando um órgão recebe um investimento energético (carga) diferenciado dos demais, a harmonia interna se desequilibra: surge a doença.
      A doença é, pois, uma forma de expressão simbólica do organismo da desarmonia, da desconexão entre mente e corpo, desejo e negação, entre impulso e estase.
      Uma vez que não há a possibilidade de simbolizar, a energia vai para o corpo. Trás, portanto, uma desconexão entre corpo e mente.

DESENVOLVIMENTO INICIAL E PSICOSSOMÁTICA
A psique do bebê é constituída pelo Self Primal - uma unidade psico-física, ou a "representação da totalidade da psique-soma ainda no estado germinal", no dizer de Fordham. Nele está contido todos os potenciais psicofisiológicos. Dele todos os Arquétipos brotam.
      No Self Primário há um estado uniforme de integração, no qual Psique e corpo se desenvolvem através de deslocamentos das funções deintegrativas e reintegrativas. No primeiro caso, partes dos arquétipos que se separam e se diferenciam são projetadas na figura materna, com quem a criança nasce "pré-disposta a relacionar-se". No segundo, a criança trás para si, introjeta, integrando as partes projetadas, assimilando e digerindo o processo deintegrativo.
      A mãe é, portanto, o continente no sentido físico e mental. É aquela que contém o Self Primal. No nível mental coloca as demandas da criança em termos compreensíveis e organizado para ela. No nível físico, traz a noção de unidade e de um todo integrado, sendo seu corpo, espaço continente a partir do qual a criança vai poder criar a noção de território, de eu e não-eu.
      Quando a figura materna não está presente, a deintegração acontece, mas não há limites para o Self Primal, uma vez que este não encontra contenção no meio externo. Conseqüentemente, não há possibilidade de reintegração, de forma que, nesses casos, ocorre uma desintegração.
      No processo de deintegração e reintegração ocorre a diferenciação e a estruturação do Ego.
      Geralmente quando há somatizações intensas, a história do sujeito mostra que houveram falhas na formação egóica.
      O sujeito encontra-se totalmente submerso no Ouróboros/Ponto da Necessidade do Círculo Psico-Orgânico ou no reino da Grande Mãe, mais especificamente no Ponto da Acumulação. Vive ainda a indiferenciação e sua percepção é totalmente sensorial, num estado de total dependência para sua sobrevivência.
      Vive o mundo da matriz inconsciente, "imagem da natureza primeira e da organização fundamental da energia psíquica" (17).
      Como não há um ego estruturado, não há memória, noção de eu, de corpo, de tempo ou de espaço.
      O sujeito encontra-se sob o domínio de Ananke (18) - deusa da Necessidade, que determina a vida psíquica desde seu início. Esta comanda a partir do "interior profundo", do orgânico profundo. "Quanto mais nos interiorizamos, tanto mais nossas necessidades físicas corporificam-se" (19), vamos nos aproximando da camada Psicóide e do Self, onde estão as nossas necessidades mais primordiais.
      Nos mitos, Ananke está ligada a Cronos - deus do Tempo e a Eros Primordial - energia de ligação.
      Estar sob domínio de Ananke é estar totalmente sob o poder do outro, em suas mãos, tal qual o bebê nas mãos da mãe. "A necessidade refere-se a aquilo sem o qual uma coisa não pode existir" (20). Pertence à própria natureza, estado ou condição do ser.
      Não ter às necessidades básicas supridas, é estar permanentemente sob o domínio de Ananke, visto que o sujeito estará sempre carecendo de algo.
      A Necessidade (junto com o Tempo - Cronos) estabelece limites para a expressão externa e interna. Quando não atendida, ela pode aprisionar. Em seu modo de atuar, Ananke aprisionava através do vínculo, representados por adereços como: anel, correntes, corda, laço, coleira, nó, eixo, grinalda, arreio, julgo, pregos cravados no corpo, coroa. Ela fala de todas as necessidades impostas ao humano pelas exigências e restrições, sejam estas físicas, espirituais, de relacionamento, de papel social, de expressão ou criativas.
      Servir a Ananke não é uma escolha, mas algo intrínseco à natureza humana. É ela que permite que a saúde do corpo e da alma tenha o seu lugar. Trata-se do "arquétipo vivo de o que precisa ser feito" (21) para que a sobrevivência seja possível.
      Ananke é atendida quando há o entendimento da necessidade de um tipo de alimentação adequada para permanecermos saudáveis. Ou quando se percebe que precisamos viver de forma criativa para não cairmos em depressão.
      Não respeitar Ananke ou desafiá-la é sempre perigoso, visto que ela rege os distúrbios físicos e psíquicos. A punição da deusa é a doença, uma vez que toda "reação orgânica tem uma necessidade simbólica" (22).
      Geralmente Ananke se aproxima devagar, por isso

Nosso corpo vai sinalizando, com muita antecedência, o desequilíbrio através de pequenas alterações funcionais sem substrato físico; isto é, não há nada a nível orgânico que justifique aqueles sinais ou sintomas. Com a não valorização desses sinais e a manuntenção do mesmo padrão de vida, as alterações físico-químicas vão-se cronificando, se solidificando até atingirem o segmento físico; a doença passa a se expressar em algum tecido, órgão ou víscera, acompanhada de padrões mentais e emocionais bem determinados (23).
      
Como a necessidade primordial manifesta-se sensorialmente e é real e individual, Ananke não pode fixar-se numa representação. Logo, não tem imagem. E, "... sem imagens, ficamos mais cegos, pois não conseguimos identificar a força que nos conduz" (24).
      Quando a energia regride a essa fase, contata-se com as formas mais primitivas de relação corpo e mente, ou seja, com um universo de sensações. Percepções, emoções e sentimentos ainda não existem, visto que estes são transformações do universo sensorial e só surgem num segundo momento.
      A relação mãe-criança em seu início é totalmente sensorial, se estabelecendo através da linguagem corporal, do Diálogo Tônico/Emocional.
      "O tônus muscular é a qualidade de tensão muscular involuntária que expressa os diferentes afetos. O estado tônico é um modo de relação" (25).
      A função tônica (26) do corpo é a mais primitiva e essencial de comunicação e troca. O bebê trás consigo uma modulação que é satisfeita por uma disponibilidade tônica da mãe. Esta fala do reconhecimento da criança de sua existência pelo outro, que é fundamental para que ela se sinta compreendida e reconhecida como um ser existente.
      Ao nascer, o bebê não reconhece o seu próprio corpo, experiencia uma massa difusa e indiferenciada que é, por vezes, invadida por estímulos intraceptivos (fome, desconforto). Estes alteram seu estado tônico-emocional: ao mesmo tempo que reage com o choro e debatendo-se, há um enrijecimento, um aumento na quantidade de tônus.
      A esta condição, Wallon chamou de Hipertonia de Apelo: há uma alteração na motricidade, que leva a uma alteração neurovegetativa desencadeadora de uma emoção.
      Cabe a mãe satisfazer a necessidade do bebê. Este, então, modifica seu estado emocional, alterando sua motricidade e diminuindo a quantidade de tônus. Entra num estado de relaxamento; volta a uma condição hiportônica (denominada Hipotonia de Prazer).
      Através de sua presença, do contato físico, cutâneo, o bebê vai reconhecendo a sua existência.
      Já dizia Jung "no tempo de nossos ancestrais a 'consciência' humana formou-se a partir do relacionamento sensorial da nossa pele com o mundo exterior" (27).
      A pele assume, portanto, um papel fundamental no desenvolvimento humano, por ser "o mais extenso órgão dos sentidos do corpo e o sistema tátil, o primeiro sistema sensorial a se tornar funcional" (28). O sentido do tato "é o primeiro a ser desenvolvido no feto" (29) - a partir da 6ª semana de vida intra-uterina - sendo que cada milímetro de nossa pele é provido de numerosos "receptores nervosos" (30).
... A comunicação se estabelece na origem através da linguagem corporal, a função psíquica se apóia e se desenvolve a partir da vivência corporal. Na relação original mãe-bebê, o contato tátil da mãe no bebê tem como funções: a estimulação orgânica (favorece o deslanchar de atividades novas como a respiração, a excreção-digestão e as defesas imunitárias), a comunicação afetiva (o sentimento de segurança, a confiança de base) e prepara o acesso à linguagem. Esse contato conduz, aos poucos, a criança a diferenciar uma interface (como uma membrana) que permite a distinção do externo e do interno trazendo a experiência de um continente. Esta vivência no quadro de uma relação segura, dá acesso a um sentimento de base que garante à criança a integridade de seu envelope corporal (31).
Quando estas funções são preenchidas de um modo satisfatório - quando o sujeito se sente compreendido nas suas necessidades - ele pode construir um envelope de bem-estar, narcissicamente investido. Em oposição, em razão da fragilidade ou das falhas do envelope corporal e psíquico, o indivíduo guarda na memória somática a ferida narcíssica que pode ser reativada e o sentimento será expresso através de algum sintoma psico-corporal (32).
      Reintegrar aspectos dissociados é sempre uma tarefa difícil e penosa, uma vez que a revivência do trauma precoce requer revivenciar a possibilidade de destruição total de si. Faz-se necessário conectar a necessidade às imagens na experiência atual. Isso é possível porque embora sem imagens, sem formas específicas
... a Necessidade se apossa de nós através das imagens. Uma imagem tem sua própria necessidade inerente, de modo que a forma assumida por uma imagem "não pode ser outra" - seja quando pintamos, quando alteramos o verso de um poema, quando sonhamos ... A necessidade não possui imagens porque ela atua em toda e qualquer imagem (33).
      Toda realidade psíquica consiste em imagens. Estas "são primordiais, arquetípicas, em si mesmas completamente reais, a única realidade direta que a psique vivencia. Como tal elas são as presenças personificadas da necessidade" (34).
      Ao conectarmos com nossa necessidade vinculamos sensação e imagens.
      A história do paciente psicossmático está atrelada a Ananke. Observa-se, em seu relato, a ausência de uma "mãe suficientemente boa", no sentido Winnicottiano - de forma que o sujeito teve suas necessidades negligenciadas ou em decorrência da rejeição e do abandono ou da superproteção. Nesses casos, a mãe não conseguiu interpretar a experiência infantil, não lhe deu sentido.
      A experiência infantil é basicamente arquetípica. Como o bebê reage corporalmente ao mundo que o cerca. Suas reações são psicofisiológicas. Produz, portanto, distúrbios corporais, uma vez que não tem ainda a capacidade de interpretar suas necessidades, emoções e sentimentos. A relação com a mãe se desenvolve "a partir da matriz somatopsíquica inicial" (35). O corpo da mãe e o corpo da criança são diferençados progressivamente, sendo que a mãe é para o bebê a primeira representação do mundo externo. Somente muito lentamente é que os conteúdos psíquico alcançam um certo grau de diferenciação na mente do bebê. Cabe a mãe interpretar, dar nome para o "não dito" da criança. Ela vive para a criança a Função Transcendente, fazendo uma leitura de sua expressão. Ela faz a conexão entre a necessidade e o sentimento expressos pela criança e lhe dá um sentido.
      Quando as experiências ficam "mudas", a energia não é elaborada mentalmente e vai para o corpo. Ao invés de transformar-se em processos mentais, em fantasias e imagem, fixa-se no plano físico, não sendo assimiladas pelo Ego.
      A somatização refere-se, portanto, a uma forma de expressão simbólica pré verbal. "A dificuldade de simbolizar no nível mais abstrato seria conseqüência prematura da relação com a mãe, quaisquer que sejam os motivos" (36). É, portanto, uma resposta arcaica, pré-simbólica, que surge frente a uma angústia intolerável.
      Há posteriormente, na história do sujeito, uma repetição de associações entre doença e conflitos traumáticos. Estes remetem à angústia.
      É como se o corpo e os órgãos ocupassem simbolicamente o lugar da "mãe-continente-interpretante", sendo o copo o continente do sofrimento que não pôde ser elaborado.
      Faz-se necessário diferenciar o paciente psicossomático daquele que apresenta uma somatização em decorrência de um momento de maior stress. No primeiro caso a história de vida do sujeito, em geral, traumas relacionados a tentativas de aborto, perdas, abandono e/ou ausência da figura materna anteriores ao primeiro ano de vida. Segue-se posteriormente reincidências de doenças orgânicas frente a outras situações conflituosas, como nascimento de irmãos, entrada na escola etc.
      No segundo caso, em alguns momentos, quando há excesso de carga, não possibilitando a auto-regulação e, portanto, uma elaboração, ocorre a doença.
      A somatização é "um refinamento do inconsciente, uma reação orgânica. Tem uma necessidade simbólica que busca o contato com a realidade" (37). Os sintomas corporais são, portanto, mensagens da própria Psique, tendo um valor simbólico (arquetípico) e um sentido (individual) para o sujeito. A saúde para Jung é sinônimo de flexibilidade. Sem flexibilidade não há equilíbrio.
      Flexibilidade nada mais é do que o fluxo energético psíquico livre (38). Já a contenção, refere-se a rigidez, a estagnação, a paralisia, sendo estes sinônimo da doença. À medida que conseguimos confrontar as nossas barreiras internas, os nossos complexos repressores parentais, culturais, então nós liberamos o fluxo da energia psíquica.
      A estase, os bloqueios energéticos, são fatores desencadeantes dos sintomas psicossomáticos. Expressam tanto desordens psíquicas como compensações dinâmicas do inconsciente.
      A saúde, a criatividade, o bem estar individual e social evidentemente estão ligados a essa liberação do fluxo energético.
      No trabalho com pacientes psicossomáticos
... utilizar técnicas que propiciem o fluxo energético e reduzam a estase é particularmente importante ... fazer com que a energia flua. O equilíbrio simpático e parassimpático é então reestabelecido. Desta forma podemos auxiliar a rearmonização do corpo e da mente e o desaparecimento dos sintomas psicossomáticos e o desequilíbrio psicológico (39).
      O equilíbrio - a auto-regulação - só é possível através da livre circulação de energia no organismo, assim como através das trocas contínuas entre o corpo e o meio ambiente (introversão e extroversão da energia).
      A origem da doença é sempre atual, uma vez que o passado só é acessível no momento presente da Psique. Ela se enquadra no contexto recente transformado e simbolizado. Cabe ao terapeuta facilitar a reconexão com a fonte arquetípica, facilitando a regressão energética profunda para uma nova progressão.
      Quando as leituras e as técnicas da Psicologia Junguiana e da Análise Psico-Orgânica se misturam e se complementam na visão da doença psicossomática, pode-se de fato trabalhar holisticamente, uma vez que ambos pressupostos nos conduzem a uma decorrência importante para a prática terapêutica: o corpo é expressão válida da totalidade psíquica; 'intervir' sobre o corpo é também um meio de intervirmos, sincrônicamente, sobre o organismo como um todo.

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