Haptonomia


Haptonomia - O toque como via de acesso à integração da tríade mãe-pai-bebê.
Silvana Sacharny


      As circunstâncias em que uma nova vida se cria; a concepção, a vivência uterina e o nascimento, são os primeiros indicadores do processo de desenvolvimento dessa vida.
      Desde a concepção até o nascimento, o bebê está numa relação simbiótica com a mãe, nesse estado se encontram todas as potencialidades de seu "vir a ser", fixadas nos seus genes; a memória da evolução filogenética do homem e a sua constelação individual (a herança da sua ascendência direta).
      Partindo da unidade corpo-psiquê, desde a concepção de uma nova vida, não se poderá mais considera-la à distância, mas pensar esta vida que se anuncia em todas as suas potencialidades. Representa um ser que pede para ser reconhecido, encontrado e amado.
      Muito cedo, trocas importantes intra-útero se estabelecem entre a mão e seu bebê, a vivência no período pré-natal imprime no ser o que podemos chamar de memória sensorial.
      A partir de sua natureza orgânica, a mulher (em condições normais) pode receber a nova vida, fazê-la amadurecer e sustentá-la efetivamente. No estado de fusão orgânica, a gestante percebe o bebê praticamente o tempo todo, porém sentir a movimentação não é suficiente para de fato estar em contato com a sua gestação. A construção da função materna se inicia nesse período, é fundamental a vivência da sua capacidade receptiva, o aprofundamento da qualidade de contato afetivo. Faz-se necessária à integração entre a disponibilidade psíquica e corporal para que a mulher possa percorrer uma trajetória ambígua de afetos, de sensações e expandir sua consciência corporal feminina e materna. Desta forma, as condições para um bom parto e nascimento são bastante favorecidas.
      Nesse campo conceitual, gostaria de introduzir um trabalho chamado Haptonomia, criado na Holanda por Frans Veldman, em grego, "HAPSIS" evoca o toque na sua dimensão de ajuda e de cura, e "NOMOS" se refere à lei, a regra. A Haptonomia se define como a ciência da afetividade através do contato psico-tátil. É um trabalho referente ao período pré e pós-natal, faremos um recorte na focalização durante a gestação. É uma proposta às mães e aos pais que permite entrar em contato pré-natal com o bebê, criando condições favoráveis para o desenvolvimento recíproco da ligação mãe/bebê durante a gestação, sendo esta a base do desenvolvimento do vínculo pós-natal. A intenção é criar um diálogo, uma comunicação a partir do toque, do contato. É nessa interação que aparece o estar juntos afetivamente, na circulação entre o bebê, a mãe e o pai.
      A paternidade também é uma construção que se inicia no período de gestação. Para o homem, esse momento ainda é pouco concreto, sendo ainda mais difícil para ele sentir esse lugar de pai. Daí se dá toda a importância da possibilidade de comunicação psico-tátil afetiva, onde ocorre uma aproximação objetiva, de modo que literalmente ele sinta o bege entre suas mãos.
      Dessa forma, os pais vão se apropriando e confirmando o lugar da parentalidade, havendo também uma melhor interação no casal. Cria-se um espaço para compartilhar as sensações, os sentimentos. O homem pode enfim se tornar mais presente, trazendo consigo atributos essenciais como suporte, sustentação, de fundamental importância para a mulher nesse período. Numerosos trabalhos demonstram a existência de uma sensorialidade fetal e dos efeitos pós-natais dessa experiência. Na interação comunicativa, a capacidade receptiva do feto aos estímulos de contatos afetivos é despertada. Ele é convidado, através do toque heptonômico, a uma maior movimentação. Sabemos que o movimento é um grande fator de vitalidade.
      Finalmente, a possibilidade da vivência uterina como espaço protegido, investido e nutrido energeticamente abre acesso para a chegada de um bebê mais desperto ao mundo e às trocas.

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