Círculo Psico-Orgânico e Ciclos Arquetípicos na Arteterapia

Ana Luisa Baptista

Resumo:
No processo arteterapêutico busca-se a utilização de técnicas que permitam a livre expressão através dos símbolos - linguagem do inconsciente. O presente trabalho tem como proposta contribuir para a leitura simbólica do fazer artístico integrando duas correntes psicológicas: a Psicologia Analítica e a Análise Psico-Orgânica.

Abstract:
The Art-Therapeutic process looks for using techniques allowing the free expression through the language-symbols of the unconscious. This work aims to contribute to the artistic-doing symbolic reading, integrating two psychological courses: Analytical Psychology and Psycho-Organic Analysis.

A natureza da vida depende de completar ciclos de expressão energética
criados pela forma.
O sentido de um ciclo é aceitá-lo e segui-lo.
Strephon Kaplan-Williams

OS CICLOS ARQUETÍPICOS

          Na Psicologia Analítica o desenvolvimento da psiquê parte de um estado original de indiferenciação. Neumann (1) denominou este estado inicial de Ourobórico, representado mitológicamente pelo Ouróboros - imagem alquímica do dragão que se engendra e engole a própria cauda, devorando a si mesmo - expressando a continuidade do início e do fim.
          O Ouróboros representa "o redondo que contém" . O autocontido, onde os opostos macho e fêmea, pai e mãe, princípio e fim se unem. Não há antes nem depois, só a eternidade Tudo é envolvente e contém, circunda, protege, preserva e nutre. O mundo é dotado de duplo sentido: o que é interno é externo e o que é externo é igualmente interno.
          Durante este estágio inicial, há predominância absoluta do inconsciente. Vivencia-se o obscuro, o Caos onde tudo existe, mas nada tem uma forma específica.
          Com o nascimento, a criança passa a viver o estágio da Ouróboros Maternal, caracterizado pela relação mãe-que-alimenta e bebê. A mãe torna-se, então, o próprio destino da criança, "cuja natureza é pertencer à mãe e ser parte dependente desta" (2).
          Nesta fase, a "relação primal funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com o próprio corpo, com o Self, com o "tu" e com o mundo" (3). Tal relação é determinante para o sentimento de existir da criança.
          No nível corporal, o Ego e a consciência se encontram a mercê dos instintos, das sensações e das reações provindas do ambiente e do corpo. Não há ordenação, centralização, aceitação e recusa, visto que o Ego ainda não se diferenciou da matriz do inconsciente.
          Posteriormente, o desenvolvimento da personalidade se processa através de quatro Ciclos Arquetípicos: Matriarcal, Patriarcal, Alteridade e Cósmico. Estes, porém, são "evolutivos-estruturantes", referindo-se: "... a transformação progressiva da consciência, mais adiante, ao mesmo tempo, a imutabilidade do arquétipo que rege a sua transformação" (4).
          O Ciclo Matriarcal é considerado o mais arcaico, visto que a consciência, nesta fase, opera muito próximo do inconsciente, permitindo a vivência da magia, do ocultismo, da superstição, da sensualidade, do instinto, da criatividade e da regressividade.
          Ao se configurar como imagem arquetípica, a Grande Mãe se manifesta em sua bipolaridade. Por um lado, traz as imagens de aconchego, de proteção, por outro, de possessão, de destruição, da mãe devoradora.
          Aqui a personalidade começa a emergir, mas ainda está mergulhada no inconsciente. Vivencia-se um mundo regido pelos desejos, pelo princípio do prazer, da fertilidade e da sensualidade. Há uma intensa proximidade afetivo-corporal, visto que o Self, nesta fase, é apenas corporal.
          A vivência do espaço-corpo passa a se definir na relação entre essas polaridades. A mãe "transforma" desconforto em conforto, dor em prazer, frio em aquecimento, molhado em seco. Nesse dinamismo a criança vivencia um mundo de opostos complementares, pois o meio externo se apresenta de forma binária: calor-frio, seco-molhado, amor-ódio. Estes são os primeiros organizadores da consciência.
          A mãe trás para a criança a vivência da corporificação, criando um dentro e um fora. É a vivência do "corpo que dá limites à personalidade" (5), de forma que o sujeito passa a perceber um Eu e um Não Eu.
          Em seu desenvolvimento progressivo, a consciência começa a se distanciar do inconsciente. A criança agora vivencia também a lógica patriarcal que tem suas bases nas idéias e ações previamente determinadas. Seus princípios são as regras, as normas, o dever, a tarefa e a coerência. Entra no Ciclo Patriarcal.
          Desenvolve a capacidade de recordar-se e de ligar-se ao ambiente, conseguindo integrar sensações e observações passadas e presentes. Internaliza a noção de continuidade, passa a ter memória da própria história, percebendo um ontem, um hoje e um amanhã. O tempo torna-se um regulador da vida neste período.
          O espaço se organiza e se orienta em termos de direções e orientações contrastantes: em cima-em baixo, frente-trás, de um lado e do outro, perto-longe etc.
          Para ela, o pai é o mediador entre o lar e o mundo. Através de sua força ela adquire segurança e autoconfiança. E em sua autoridade encontra a ajuda necessária para descobrir os limites próprios e externos. Os limites no universo patriarcal, porém, são rígidos, trazendo um componente repressivo, em nome da lei e das regras.
          O arquétipo do Pai organiza a consciência por meio da ordem, dos códigos, da moral e da ética. Representa o mundo dos costumes, dos valores tradicionais, das normas sociais e das expectativas culturais no que se refere a atitudes e comportamentos.
          A necessidade de ser protegido e cuidado, assim como a de ser orientado e conduzido no mundo, estabelece padrões de dependência. Estes são organizadores da psique e estruturantes. Tendo internalizado os arquétipos da Grande Mãe e do Pai, o sujeito constela a Dinâmica do Herói.
          Nas mais diversas narrativas mitológicas o herói ou heroína age de maneira específica. "Constituem uma tentativa do Inconsciente em criar um modelo de Complexo do Ego ideal, que permanece em harmonia com as exigências da Psique" (6).
           No desenvolvimento humano, o ápice da dinâmica do Herói acontece na adolescência e no adulto jovem, quando o sujeito busca um caminho próprio, deixando um registro individual, uma marca na sociedade a qual se pertence (por ex.: profissionalizar-se, prover o próprio sustento, buscar parceiros, gerar filhos etc.).
          Após a vivência das polaridades, do mundo de opostos e da Jornada Heróica, chega-se à noção de identidade única: vive o Ciclo da Alteridade.
          O sujeito caminha rumo ao relacionamento com o Outro e a sua própria individualidade. O Ego torna-se capaz não só de afirmar a si próprio, como também de considerar a posição do outro, relacionando-se com ele dentro da mutualidade. Pode abrir mão da segurança que encontra dentro dos limites individuais e empatizar-se com a realidade do outro.
          Ao contrário da fase anterior, onde os opostos são vivenciados como excludentes, na Alteridade as polaridades são identificadas como tal, mas há a capacidade de relacionar-se dialeticamente e criativamente com elas. O sujeito vivencia várias facetas de si próprio e as inter-relaciona. Pode trocar de posições e colocar-se no lugar do outro.
          É no dinamismo da Alteridade atualizam-se os arquétipos vinculados ao contra-sexual (Arquétipo do Animus - parte ativa e masculina da mulher) - e Arquétipo da Anima - parte passiva e feminina do homem) e sua inter-relação (Arquétipo da Coniunctio).
          A individualidade, porém, se faz presente em todos os Ciclos, mas de maneiras diferentes: no Dinamismo Matriarcal, através da forma particular de cada sujeito em satisfazer-se em função dos princípios do prazer e da fertilidade; no Dinamismo Patriarcal por meio da competição na realização de tarefas comuns; e, no Ciclo da Alteridade, na capacidade de se afirmar e de ao mesmo tempo considerar a posição do Outro, relacionando-se com este de forma igual para igual.
          A partir da integração das polaridades o sujeito as transcende podendo retornar ao padrão unitário: entra na Dinâmica Cósmica.
          No Ciclo Cósmico a finitude do processo de vida se faz presente e nítida. O sujeito busca um significado para a sua existência. Atualiza o Arquétipo da Totalidade Psíquica: o Self. Entretanto não se trata de um retorno à vivência Ourobórica, visto que neste momento a consciência se faz presente.
          Embora a seqüência das etapas do Processo de Individuação se dê numa ordem evolutiva, a sucessão dos estágios não implica no desaparecimento do anterior quando o outro surge. Quando há predominância de um destes estágios, os outros permanecem "adormecidos", mas prontos para assumir o centro sempre que a situação vivenciada exigir.

O CÍRCULO PSICO-ORGÂNICO

          Criado por Paul Boyesen, o Círculo Psico-Orgânico refere-se tanto à trajetória de vida, como a circulação energética. Trata-se de um modelo fenomenológico que vincula a experiência psíquica e corporal do sujeito.
          Este se divide em nove pontos (etapas).
          O primeiro ponto, denominado Necessidade, inicia-se com o começo da trajetória humana: vai da fase intra-uterina aos primeiros meses do bebê.
          Na vida intra-uterina há uma fusão orgânica entre mãe e bebê. O recém nascido é "um pequeno sistema de energia dentro do sistema de energia da mãe. Quando nasce, há um processo de separação dos dois sistemas energéticos. Antes estava 'dentro' dela, agora está 'próximo' a ela" (7). O espaço intra-uterino contém e envolve, de forma que o bebê sente-se totalmente protegido.
          Fora do útero, o espaço é ilimitado, não há fronteiras. Ao nascer, o bebê tem que lidar com as várias mudanças internas e externas: muda a sensação térmica, precisa aprender a respirar, a engolir e a adaptar-se a força da gravidade, a luminosidade, aos novos ruídos do meio ambiente e a falta do aconchego do universo uterino. Surgem sensações de fome e sede.
          A dependência do outro é total. Como a personalidade ainda não está delimitada e diferenciada, o bebê vivencia um estado de completa fusão. Ainda é parte da mãe que o alimenta e protege, sentindo o corpo da mãe como um prolongamento do seu próprio corpo, precisando que esta supra todas as suas necessidades físicas e emocionais. Isso é necessário para que ele crie um contorno em torno de si, uma fronteira entre eu-outro, eu-meio externo.
          Vive um espaço de receptividade e de atividade ao mesmo tempo: cabe a ele se apropriar do que o meio lhe oferece, pegando o que necessita para si. Fazer dele o que recebe da relação com o outro. Cabe ao adulto que lhe cuida ser "interpretante, tradutor, simplificador de um mundo complexo e desconcertante. Mãe filtro e ponte, protegendo-o da intensidade, força e variedade de estímulos, para que o bebê os receba na medida em que seja capaz de absorvê-los ..." (8).
          É a partir da interação com a figura materna - ora ausente, ora presente - que a criança começa a criar seu envelope corporal: um continente que delimita eu de não-eu, meu de não-meu, dentro e fora. Esse envelope assegura à psique a certeza e a constância, possibilitando a vivência do sentimento de bem estar e a construção da sensação de existência.
Passa, então, para a segunda etapa do Círculo: a Acumulação.
          Aqui a criança começa a perceber os limites corporais. Surge o sentimento de território, da apropriação do próprio corpo e dos conteúdos internos.
          O outro é agora um espaço continente de um corpo sem limites, permitindo ao sujeito acumular energia e apropriar-se do que é seu. A criança precisa ser tocada, manuseada, para poder sentir a extensão de sua pele e organizar, através do outro, suas emoções. É quem lhe cuida que lhe faz sentir-se firmemente sustentada, podendo definir-se corporalmente. Depende totalmente do outro para reconhecer sua existência.
          Surge o sentimento de posse. A criança sente o que é seu: seu corpo, seu território. Pode, então, começar a estabelecer trocas com o meio externo, dando e recebendo.
          De posse de seu corpo, vivencia a Identidade Orgânica. Passa a experimentar um movimento de expansão, ampliando sua motricidade com total autonomia corporal.
          Embora já haja um distanciamento da figura materna, esta ainda é a grande referência da qual o sujeito pode se afastar e aproximar novamente. Para a criança, poder ir aonde se quer e retornar, sabendo que a mãe está presente, trás segurança e confiança nos seus próprios movimentos. Tal presença é percebida tanto pelo campo visual - a criança localiza a mãe através do olhar - como pelo universo sonoro - ela chama a mãe e esta responde, bem como escuta a voz da mãe que a chama.
          Na quarta etapa, a Força, o sujeito conecta-se com a sua potência, percebendo a própria força e canalizando sua energia para atuações específicas.
          Necessita agora da lei, dos limites e das regras. A função paterna é essencial, favorecendo a estruturação da personalidade e seu encaminhamento rumo ao mundo. É a partir dos limites dados tanto pelo meio externo, como pelo outro, e da sensação da força deste outro, que a criança poder vivenciar a sensação da sua própria força e direcionar sua energia para um objetivo. Ela descobre o poder do "não", do impedimento, e, a partir dele, pode afirmar o "sim", o caminho a seguir. O outro agora é tanto obstáculo como apoio para viver no mundo.
          Ao introjetar os limites e as regras, o sujeito entra em contato com suas potencialidades e possibilidades. Vive a experiência de sua Capacidade.
          Pode, então, imaginar o que quer, mas como ainda não há uma escolha definida tem a possibilidade de visualizar todas as formas de investimento de sua energia no mundo. É a fase do sonho, da fantasia, quando a energia criativa flui livremente, sem a necessidade de um direcionamento específico. Aqui as possibilidades são maleáveis e podem ser modificadas a qualquer instante.
          Chega, então, o momento de optar. A nova fase, o Conceito, fala das escolhas conscientes, do inevitável confronto com a realidade ao se passar das idéias para a ação.
          O sujeito confronta seu desejo com a realidade e, ao tentar colocá-lo em prática, com as contradições entre a imagem simbólica (idealizada) com a imagem real (o que é possível fazer).
          A escolha de uma possibilidade do momento presente exclui todas as demais possibilidades existentes. A perda das outras possibilidades leva ao luto intrínseco à escolha: ao se escolher uma possibilidade, dá-se adeus a todas as outras. Uma vez que a escolha se realizou, nem sempre é possível voltar atrás.

          Quando a energia pode encarnar, ganhar uma forma, o sujeito passa da idealização para o concreto, com todos os obstáculos existentes na realidade. Vai de encontro ao mundo real. Vive a Expressão do seu desejo.
          A possibilidade da expressão, do fazer concreto, está intrinsecamente relacionada com a maneira com que os outros pontos do Círculo foram vivenciadas. O sujeito pode "pedir o que quer, ir ao encontro do objeto de amor e o pegar, fazer o que planejou" (9).
          Depara-se com a reação do outro, não necessariamente previsível. Faz-se necessário arriscar para poder realizar o que quer. Tal risco só pode ser vivenciado se o sujeito for capaz de aceitar a eventual recusa e ser capaz de recomeçar novamente.
A partir da concretização de seu desejo entra em contato com o que sente: vivencia o Sentimento, que se conecta à ação.
          Vivencia a qualidade de sua experiência e colhe os frutos de sua realização. Vive a satisfação do encontro com o outro no mundo e a entrega que possibilita este acontecimento. É capaz de fundir-se com o outro, mas sem perder a sua identidade. Contata com sua vulnerabilidade, visto que há uma "abertura do coração" para o outro.
          Chega finalmente ao momento da Orgonomia, quando o sujeito percebe-se como parte de um todo maior.
Trata-se de um retorno ao estado original de completude, onde se vive o todo, mas com a consciência de si. Aqui, "não há questionamentos, nem ação, é simplesmente um estado de prazer e de bem estar independente" (10). Vive a completude na sensação de pertencimento ao cosmos.
          Toda vez que o Círculo se fecha, acaba por se abrir novamente a partir de uma nova necessidade.

CORRELAÇÃO ENTRE OS CICLOS ARQUETÍPICOS E O CIRCÚLO
PSICO-ORGÂNICO

          Correlacionando os Ciclos Arquetípicos ao Círculo Psico-Orgânico percebe-se que ambos partem de um estado de indiferenciação total, no qual a criança está mergulhada.
          Do ponto 1 ao 6, - primeira parte do Círculo Psico-Orgânicao - o desenvolvimento centra-se no Eu, de forma que a energia se concentra na separação do sujeito de seu objeto de amor, da saída de um estado de dependência absoluta (ponto 1) para a internalização da Lei (ponto 6). Ao percorrer essas etapas, se diferencia das figuras parentais e constrói uma identidade própria.
          Estes pontos do círculo inserem-se nas dinâmicas:
  • Ouróbórica (vivencia da Indiferenciação) - Ponto 1: Necessidade;
  • Matriarcal (que dá início ao processo de adaptação à vida e à    satisfação das necessidades básicas) - Ponto 2: Acumulação e Ponto    3: Identidade Orgânica;
  • Patriarcal (onde se estabelece as bases para o desenvolvimento da    consciência) - Ponto 4: Força, Ponto 5: Capacidade e Ponto 6:    Conceito.
              Entre os Pontos 5 e 6, o sujeito passa pela Jornada do Herói. Há uma escolha entre permanecer nos reinos da Grande Mãe e do Pai, ou seguir o Chamado, rumo à sua própria "expressão no mundo" (11) e à Individuação.
              Dos Pontos 7 ao 9, o foco do desenvolvimento passa a ser a relação com o Outro. A fronteira entre o sujeito e o objeto de amor se dissolve e ocorre o desaparecimento do eu na união com o Cosmos.
              Tais pontos inserem-se nas seguintes Dinâmicas:
  • Alteridade (onde o sujeito pode fundir-se com o outro, mas sem perder    a sua individualidade) - Ponto 7: Expressão e Ponto 8: Sentimento;
  • Cósmica (volta ao todo, mas mantendo a consciência do eu.) - Ponto    9.

    OS CICLOS ARQUETÍPICOS E O CÍRCULO PSICO-ORGÂNICO NA ARTETERAPIA

              Ouróboros/Ponto da Necessidade - caracterizados pela indiferenciação. Vivencia-se a ausência de limites corporais: não há percepção do próprio corpo, que é parte do ambiente ou do outro.
              Os movimentos são quase imperceptíveis, lentos e fluidos. Observamos estes movimentos em processos de regressão profunda. É comum a vivência de sensações semelhantes ao universo uterino, muitas vezes acompanhado do desejo de dissolver e ser absorvido pelo todo.
              Plasticamente, a criança vivencia a fase da Garatuja Desordenada (12): não há consciência do material plástico por ela utilizado, do seu próprio movimento e do rabisco por ela deixado nas mais diversas superfícies. O mesmo ocorre com a utilização de tintas: há interesse na exploração do material, mas não há intenção de deixar qualquer tipo de registro.
              Na representação plástica do adulto, as imagens que chegam neste momento, em geral, não têm forma. São indiferenciadas - tudo se mistura: não há estrutura, tempo e espaço.
              Encontram-se também imagens referentes às profundezas: abismos, vales, fundo do mar, lagos, poços, interior da terra, mundo interior, caverna, casas, ninhos, conchas ... Compartimentos que têm a finalidade de envolver para proteger e lugares de refúgio onde a vida concentra-se para se transformar.
              No trabalho com máscaras, o uso das Máscaras Neutras (13) leva a vivências regressivas. Diante do rosto sem contornos precisos e da visão difusa, os movimentos realizados são, em geral, circulares e "para dentro". O sujeito fecha-se em si mesmo ou coloca-se em posição fetal. Muitas vezes busca-se o apoio do chão, da parede, de almofadas, de bolas grandes. Surgem sensações de leveza, de estar na água, de flutuação.

    Músicas regressivas, descendentes e introspectivas, assim como algumas técnicas que focalizam o movimento indiferenciado (realizado com tinta aguada sobre papel) e o trabalho com a água (mergulho, flutuação), que é regressivo por si só, favorecem o contato com este momento.
    Ecoline ou aqualine, ou pigmento de xadrez líquido, ou de nanquim coloridos pingados em papel canson com água; ou o sopro de tinta com canudo em canson umedecido; ou a brincadeira de escorrer a diluição de nanquim no álcool sobre o papel canson; ou os trabalhos desenvolvidos através da monotipia; ou a cera derretida jogada aleatoriamente sobre o papel; ou a técnica de dobragem com anilina em pó sobre plástico com cola; ou ainda o papel marcado pela fumaça ou chama de uma vela; ou seja, os trabalhos com manchas, sem formas figurativas, trazem o indiferenciado, permitindo um mergulho profundo no inconsciente. Trata-se de atividades em que não se tem controle sobre o que faz nem sobre as imagens que surgem no papel. Cabe ao sujeito somente acompanhá-las.
              Na escrita espontânea, as histórias trazem conteúdos semelhantes ao início dos mitos de criação. É, também, comum a representação de imagens vinculadas ao tema do aborto.
              No trabalho com o toque focaliza-se o toque ontológico, que trás a sensação de existência.

              Dinâmica Matriarcal - nesta fase podemos observar o corpo desabrochando. O sujeito começa a explorar as possibilidades sensoriais e a conhecer o próprio corpo. Há predominância das sensações corporais de prazer e dor. Desenvolve a sensibilidade de tocar e ser tocado, acolhendo a si próprio e ao outro. Contata com a energia geradora do Feminino que aconchega e nutre.
              As vivências de entrega, de abandonar-se ao outro, induzem ao universo matriarcal. Os movimentos são flexíveis, leves, suaves e harmônicos: fluem e deslizam, permitindo um fluxo energético contínuo. A sinuosidade e a sensualidade, atributos do Feminino, também caracterizam o movimento.
              Quando se focaliza o ponto da Acumulação numa vivência, torna-se possível conectar com um espaço protetor, de abastecimento, onde se pode abandonar a si mesmo com segurança confiando no outro, soltar todo o peso e relaxar.
              O sujeito brinca com o próprio corpo e com o corpo do outro, porém, mantém-se junto ao solo (Mãe Terra). Focalizando o movimento, busca-se o prazer no deslocamento: rolar, arrastar, engatinhar, abrir, fechar. A vivência corporal de abertura e de fechamento traz as noções de espaço aberto e fechado. Bases da construção das noções de espaço interno e externo: eu e não-eu.
              Pode se introduzir objetos como mediadores simbólicos da relação com o outro: bolas, panos, cordas, aros, almofadas, balões etc. Estes são, neste momento, utilizados de forma sensorial, na relação corpo/objeto.
              Neste contexto, no uso de panos, observa-se o movimento de cobrir, esconder, enrolar, aparecer, desaparecer. Com cordas, a aproximação e o afastamento, a união e a distância; os movimentos de segurar e amarrar. Com aros, o espaço circular fechado que permite o entrar e o sair; trazendo a sensação de estar dentro, contido ou fora; e, também, o rolar, o soltar (dar, devolver), o capturar (pegar de volta). Com balões, experimenta-se a leveza através do contato agradável, afetivo e sensual. Com almofadas, ora se pode cobrir e fazer desaparecer; ora refugiar-se, esconder-se; ora descansar, repousar e soltar o peso. Com bolas estabelece-se o vínculo através do rolar: vão e voltam, aproximam-se e afastam-se; podem ser abraçadas, permitindo a regressão, o movimento de embalo, o descanso.
              No trabalho com o toque, as técnicas de massagem focalizam o contorno. O uso de diferentes texturas leva a algum tipo de impressão sensorial, podendo trazer lembranças ou a emersão de imagens inconscientes. Tal trabalho acontece na exploração de diferentes superfícies: lisas, ásperas, enrugadas, esponjosas, crespadas, aveludadas, acetinadas, felpudas, granuladas, onduladas etc. - podendo ser realizado tanto corporal como plasticamente.
              Na água, símbolo da Grande Mãe, o trabalho com os contrastes, quente (dando continuidade ao calor dentro e fora do corpo) e frio (afirmando os limites do corpo), trazem a delimitação corporal.

    Sandplay, o trabalho na caixa de areia, é interessante nesta fase, visto que há a associação de um espaço delimitado (caixa), onde está contida a matéria (areia) e objetos, favorecendo o nascimento da representação de conteúdos profundos. O terapeuta dá espaço para que o paciente possa criar cenas ou desenhos se utilizando o material.
              Integrando água e areia, uma dá limite para outra e cria-se a possibilidade de construir.
              O desenho com linhas no espaço, cordas coloridas, lãs, barbantes, liga, envolve, estabelece vínculos. Os fios se encontram, se embolam, formam um grande emaranhado. Depois seguem ao encontro de outros espaços, outros fios.
              A Colagem é uma atividade multiplicadora. Quando se trabalha com figuras previamente recortadas entra-se em contato com uma infinidade de símbolos muitas vezes sem consciência de seu significado. Colar é ligar uma coisa à outra. Estabelece um vínculo.

    A argila, outro símbolo da Grande Mãe, dá forma a conteúdos inconscientes. Mobiliza a parte sensitiva do sujeito de forma a possibilitar o contato com outras sensações diferentes da visual. Permite a construção tridimensional e possibilita a regressão, principalmente quando trabalhada com os olhos fechados. Já quando se utiliza argila molhada, enlameada, escorregadia, possibilita-se a vivência da sensualidade do contato.
    Ainda usando a argila, a ocagem (14) da peça modelada permite o trabalho com o esvaziamento, mantendo-se o continente. A peça é aberta por dentro, escavada e, por fim, reconstruída. Nesse espaço interno outras coisas podem ser modeladas e guardadas; pode-se tirar de dentro o que não se quer mais e jogar fora, ou atribuir novas formas a esses conteúdos e recoloca-los de outro jeito.
              Na relação com o material plástico as noções de muito e pouco e seus efeitos tornam-se evidentes e relevantes neste momento. Excesso de material confunde, insuficiência trás a impossibilidade de criação.
              Na música, integrada ao movimento corporal, trabalha-se o ritmo. Este trás a velocidade na progressão e na regressão do movimento (movimentos mais rápidos, movimentos mais lentos). Também focaliza a aproximação e o distanciamento (mais perto, mais longe).
              Chegando à Identidade Orgânica, a roda - símbolo de unidade e totalidade - é um grande marco. A dança de mãos dadas simboliza a confiança e o apoio mútuo. Trás um espaço sem hierarquia nem competição. Nas Danças Circulares uma pessoa é o referencial do movimento proposto, mas este é realizado individualmente pelo sujeito que acompanha a proposta dada.
              A aproximação e o afastamento se fazem presente. O movimento ora vai de encontro ao outro e ao grupo, ora é de total retraimento. Ainda há uma forte dependência do terapeuta ou facilitador do trabalho, que é solicitado diretamente ou simplesmente buscado com o olhar.
              A relação com o objeto enquanto mediador se modifica. O foco é o objeto em si e não mais a relação corpo/objeto. Este passa a ser utilizado no movimento visando o distanciamento corporal. Faz-se importante focalizar o trabalho com o espaço, o que favorece a consciência de si. É no espaço, seja ele concreto (físico) ou simbólico (gráfico), que se fortalece a identidade, possibilitando a autenticidade do sujeito.
              A separação de sementes, contas e outros materiais - mistura de vários objetos - fala da capacidade de discernir uma coisa da outra, trazendo reconhecimento do que é nosso e do que não é. O sujeito agrupa o material de acordo com a sua qualidade e o transforma.
              Processo semelhante ocorre na utilização de teares simples. Armá-lo trás a preparação para criar o instrumento que permitirá construir a própria história. Quando pronto, o tear oferece uma forma pré-estabelecida (moldura) que será preenchida da forma escolhida pelo sujeito. É, então, preciso separar os fios para integrá-los de uma nova maneira. Tecendo criam-se ligações nas linhas que se entrelaçam e vínculos nos nós. Destecendo, voltamos atrás nas ligações estabelecidas, desfazem-se os vínculos.

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