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| | Toque e Simbolização; do Corpo ao Verbo | |
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Por Silvana Sacharny
A dinâmica do sistema relacional original irá participar na constituição do sujeito em uma determinada estrutura somato-psíquica, num padrão de funcionamento que lhe será útil durante anos. Este padrão, paradoxalmente, quando se torna estático, aprisiona num mesmo mecanismo que o limita, reduzindo o seu campo de expressão e ação.
Partindo da unidade corporal, isto é, das imbricações entre a psique e o soma, podemos compreender o sintoma como expressão de um sofrimento que não encontra outra tradução. Dessa forma o movimento energético pode estar contrito, estagnado, retido, comprometendo a auto-regulação do organismo e as expressões criativas do individuo. O sujeito fica então capturado por seus sintomas, vulnerável ao sofrimento e à doença. Ele se desconecta de suas capacidades organizadoras.
Neste enfoque propomos o toque enquanto instrumento terapêutico com a intenção de religar o corpo ao verbo. Toque e simbolização, o verbo conectado com a experiência corporal, articulando os sentidos, as sensações e os sentimentos. Para Paul Boyesen a questão do "por que eu vivo" é importante, mas também o "como eu vivo" e nesse como podemos encontrar a pessoa com todos os seus sentimentos, sua expressão vital e suas situações, é o que ele define por qualidade da vivência1.
Falar do corpo é associá-lo ao tempo, pois o corpo é o lugar em que o tempo aparece. Nesta medida a utilização do toque no processo terapêutico é ao mesmo tempo delicada e potente, pois desperta a memória somática impressa na pele. Muito cedo, trocas importantes intra-útero se estabelecem entre a mãe e o seu bebê, toda vivência humana, desde o período pré-natal imprime no ser o que podemos chamar de memória sensorial. Com o nascimento, todo ser humano, vivencia a experiência inicial de total desamparo e dependência da mãe, ou quem ocupe esta função. O recém-nascido precisará se adaptar à sua nova vida, o tempo e a qualidade destes primeiros meses marcarão a organização somato-psíquica. Os meses que seguem o nascimento são um prolongamento da gestação e constituem um período fundamental de transição. O estado de homeostase num movimento contínuo envelopado pela parede uterina, é bruscamente interrompido e um outro espaço se instala; o da necessidade. Nesta díade original mãe-bebê, o bebê vive um estado de total indiferenciação, não existindo ainda a percepção de um campo externo e outro interno.
A experiência da existência está inscrita no campo da sensorialidade, sendo que suas sensações são freqüentemente intensas, desconfortáveis, desprazerosa, em função de necessidades completamente novas. Neste estágio, este pequeno corpo é vivido de forma fragmentada, suscitando angústias de morte, fragmentação, insegurança. Somente a mãe, ou quem exerça a função materna, através do contato corporal, poderá oferecer a proteção, a segurança e o conforto necessários para o retorno ao estado de distensão, relaxamento e prazer.
A pele é o mais extenso órgão dos sentidos do corpo e o sistema tátil é o primeiro sistema sensorial a se tornar funcional. Didier Anzieu nos fala sobre o "Eu-Pele"2 , baseado na importância da integridade do envelope corporal (ao mesmo tempo de ordem orgânica e fantasmática), que visa a envelopar o aparelho psíquico e exerce a função de continente. Esta função é desenvolvida através de cuidados maternos, com toques investidos de afeto. Nesta comunicação que se estabelece através da linguagem corporal, a função psíquica se apóia e se desenvolve a partir da vivência corporal.
A sensação-imagem da pele como um saco é estimulada através desses cuidados com o corpo do bebê, apropriados às suas demandas. Esse contato conduz o bebê, aos poucos, a diferenciar uma interface - como uma membrana - que permite a distinção do campo externo e do interno. Nesta continuidade somato-psíquica a construção se dará na direção da unidade corporal. Este processo de evolução de uma dependência absoluta, a uma relativa e depois para a autonomia é construído na passagem do estado de indiferenciação ao registro da diferenciação. Aos poucos, uma fronteira se cria separando o mundo interno do externo, se posicionando assim a sensação de unidade e integração.
Nesta evolução da organização psíquica o termo "narcisismo primário" - "é designado como uma fase precoce ou momentos
1Boyesen,1998, " O inconsciente situacional ", in Manual de Ensinamento da EFAPO, vol. 5.
2Anzieu, D. - O Eu-pele, ed. Casa do Psicólogo.
básicos, que se caracterizam pelo aparecimento simultâneo de um primeiro esboço do ego e pelo seu investimento pela libido"3.
Quando estas etapas são investidas de um modo satisfatório, o sujeito sentindo-se compreendido nas suas necessidades e reconhecido na sua existência, pode constituir um envelope somato-psíquico bem definido, favorecendo o trabalho de diferenciação e individuação. Se a qualidade desse investimento narcísico fracassa, temos como conseqüência um sujeito dependente do afeto do outro, deficiente na sua unidade, na sua organização, que terá mais dificuldades para suportar a tensão de conflitos. As fragilidades e feridas narcísicas, os sofrimentos experienciados permanecem impressos na memória somática, podendo ser reativados em situações de atrito. Quando este núcleo é deficiente, o trabalho de elaboração também o será, podendo então vir a ser condição de uma pré-disposição para a somatização.
Qualquer sintoma carrega consigo um sofrimento e uma mensagem a ser decifrada. Aparece numa situação atual onde o sujeito se depara com um conflito de tensões que se tornam insuportáveis, levando-o assim a um processo regressivo. Toda situação de choque, perda, ruptura de uma ligação, reativa um processo de regressão orgânica, emocional ou psíquica enquanto mecanismo de defesa. A dinâmica da regressão se organiza em torno da proteção do sujeito em sofrimento, como uma busca de pontos de apoio originais.
O paradoxo desta situação é no encontro das intensidades das necessidades e dos desejos não satisfeitos que também podem ser reativados. Surge então a importância de podermos abordar a regressão como um momento em movimento de progressão. Daí "a utilização dos mecanismos e dos fenômenos da regressão enquanto instrumento psicoterapêutico para criar um acesso a um processo de elaboração de experiências arcaicas inconscientes "4.
A Análise Psico-Orgânica dá um lugar importante ao trabalho da regressão na sua abordagem. Nesta direção, o trabalho terapêutico através do toque e da massagem biodinâmica pode ser um canal para a restauração da comunicação tátil primária insuficiente. Quando utilizamos o toque, acompanhamos o indivíduo no reconhecimento de sua profunda existência e do seu sofrimento. Dessa forma, o sujeito também poderá acolher sua própria dor, medos e fragilidades. Este processo permite a reinstalação da ligação consigo através da ligação com o outro, permeado pelo vínculo de confiança tecido na relação terapeuta-paciente.
O toque e a massagem, com a qualidade de profundo respeito permite ao sujeito reconectar a confiança em suas sensações, sentimentos e na comunicação com o outro. A direção do trabalho é viabilizar através deste contato à emergência, liberação e expressão de manifestações corporais e emocionais. A expressão desta linguagem também abre o acesso às representações, imagens, lembranças, permitindo sua análise e integração à consciência.
Neste processo o sujeito vai reconectando sua capacidade de auto-regulação, resgatando a fluidez energética entre o corpo sensorial, emocional e simbólico. O aprendizado de relaxamento, da expiração, da entrega, da distensão muscular, vai se viabilizando apoiado em novas condições que o trabalho terapêutico imprime. A linguagem da massagem e do toque com intenções precisas irá despertar qualidades como apoio, suporte, integridade, segurança, proteção.
O sujeito progressivamente vai se disponibilizando e se tornando receptivo a sensações positivas, agradáveis, ao registro do prazer. Esta qualidade sensorial vai restaurando na medida do possível, a confiança no corpo, a segurança de base, abrindo o acesso a um novo investimento narcísico. As sensações são reinvestidas e acolhidas. O bem estar e o prazer orgânico são primordiais na construção da segurança ontológica do estar vivo e também da atividade simbólica. Do corpo ao verbo, da sensação a novos sentidos, na ampliação da
3Laplanche J./Pontalis.J. B. - vocabulário da Psicanálise, Martins Fontes Editora.
4Boyesen J. - "regressão e simbolização", in Manual de Ensinamento da EFAPO- vol. 7.
emergência de representações e imagens que trazem a função restauradora de feridas narcísicas. O sujeito encontra dessa forma um acesso para reinvestir seu corpo positivamente na reconexão com o prazer, construindo um envelope narcísico. A partir deste contato o indivíduo pode ampliar e aprofundar suas conexões nas interações com o outro, com o mundo.
  Finalmente no trabalho contínuo entre a desconstrução de antigos padrões e a construção de novos posicionamentos, o indivíduo se atualiza, permitindo a circulação da energia vital para ser de fato sujeito de transformação.
Silvana Sacharny
Psicóloga pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
Especialização em Psicologia Clínica pela Universidade Sorbonne - Paris.
Psicoterapeuta formada pela Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica.
Coordenadora e formadora do Centro Brasileiro de formação em Análise Psico- Orgânica.
Membro titular da Associação Francesa de Análise Psico-Orgânica.
Bibliografia
Anzieu, D. - "O Eu-Pele" - Editora Casa do Psicólogo
Boyesen, Gerda: "Entre a Psique e o soma - introdução à psicologia Biodinâmica", Summus Editorial
Laplanche J./Pontalis J. B. - Vocabulário da psicanálise, Martins Fontes Editora
Manual de ensinamento, vol. 5 - Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica.
Manual de ensinamento. Vol 7 - Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica.
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