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| | Transcrição da conferência “O Círculo Psico-Orgânico”
realizada por Anne Fraisse, IBAM – RJ 07/05/07
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Tradução Silvana Sacharny
Uma grande parceria de anos com a Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica, a gente está completando 9 anos, este ano, e essa construção vem de longa data; e particularmente ter a presença da Anne Fraisse essa noite com a gente é uma grande honra. Eu gostaria de coração de estar agradecendo a presença dela e todo esse trabalho em parceria e grande apoio, suporte, estímulo para esta construção estar se dando de uma forma tão produtiva. Então vou dar a palavra para a Anne para iniciar a nossa conferência esta noite.
Ela agradece a todos de terem vindo, e o agradecimento vai a toda a equipe que realizou em conjunto o trabalho desse manual. Ela agradece particularmente às pessoas que realizaram a tradução, à Abner e Ana Maria Chiquieri; às pessoas que formataram o livro: Cristiana Serra e Elen Conteratto; e ela me agradece, pois sem o início do meu trabalho a gente não estaria aqui nesse momento. Eu sou o pilar desse trabalho de Análise Psico-Orgânica no Rio e no Brasil, e hoje eu posso estar com um contorno de toda uma equipe de formadores e colegas de trabalho.
A Análise Psico-Orgânica é um método criado por Paul Boyesen nos anos 70 e essa metodologia procura fazer a ponte, a ligação, entre a psicanálise e a terapia psico-corporal, então a gente procura fazer a ponte entre psique e soma. A especificidade da Análise Psico-Orgânica é trabalhar sobre o desfuncionamento e as articulações entre a sensação, o sentimento e o sentido; de outra forma, entre o corpo, o coração e o espírito.
No quadro da psicoterapia, o analista psico-orgânico acompanha o seu cliente com uma ética e um profundo respeito. Ele está sempre na escuta de toda uma dinâmica interior, ao mesmo tempo consciente e inconsciente do psiquismo do paciente. Nosso trabalho pode se apoiar seja na linguagem do corpo, por exemplo, com tomada de consciência corporal, respiração, movimento, sensação, toque, e às vezes massagem; mas em outros momentos da psicoterapia, do processo, o terapeuta vai acolher o mundo psíquico da pessoa, o seu mundo simbólico com a escuta dos sonhos noturnos, através de visualizações. Em outros momentos isso vai ser mais do lado da análise: a conceitualização, a verbalização que vai ter lugar no processo. Que seja o caminho do lado do espírito para o corpo ou do corpo para o espírito, o analista psico-orgânico acompanha o seu paciente de forma mais respeitosa possível no seu processo de individuação. Ele é um acompanhante, ele é um parteiro, é um testemunho, é quem dá passagem do que vai emergir, do que vai aparecer, e ele considera a questão da transferência e da contra-transferência.
Aqui, na formação no Rio, dos analistas psico-orgânicos, se dá em 3 anos e meio: seis meses de pré-formação e 3 anos de formação, no ritmo de um fim de semana por mês sendo o fim de semana de 15 horas. O curso é completado por um encadeamento terapêutico e por grupos íntimos e ele termina com a escrita de uma monografia pessoal. Quando os analistas psico-orgânicos recebem o seu certificado, é pedido para que eles continuem um processo de supervisão e o respeito do código deotológico da nossa escola.
Agora ela vai falar do círculo psico-orgânico que é uma das bases da nossa formação, e esse círculo é ensinado desde o primeiro ano de formação sob forma de dois seminários, mas ele será uma referência durante todo o curso de três anos. A gente distribuiu esse círculo para vocês terem um acompanhamento, para vocês seguirem a apresentação. Ela vai procurar dizer o que é o círculo, vai trazer o espírito.
É uma estrutura dinâmica que permite analisar a psique do homem assim como a relação entre duas pessoas, particularmente entre o terapeuta e o seu paciente. É então uma visão do homem que Paul Boyesen elaborou e é fundado sob a circulação energética. Pra gente a vida é movimento, e quando há estase, parada dessa circulação... quando acontecem os bloqueios, estases, decorrem as disfunções psíquicas ou físicas que vão se manifestar. O círculo psico-orgânico é fundado sobre a respiração: Eu inspiro e eu expiro.
A gente parte do ponto 1 e eu vou inspirar. O ar que está no mundo eu pego para mim e eu o faço meu, é meu ar. Isso se torna meu, meu eu, é o meu território... depois eu expiro, do ponto 6 ao ponto 1 e eu vou devolver o ar ao outro, ao mundo, ao Universo. Para vocês notarem o bebê nasce em uma inspiração e a gente morre dando o último sopro, então nós podemos nos servir do círculo como toda uma trajetória de vida desde o nascimento até a morte, ou a gente pode se servir para analisar um momento, um segmento da vida. A inspiração corresponde ao fluxo, o fluxo de energia... é o que me permite estar de pé, ter uma verticalidade, uma identidade orgânica, de poder dizer “eu”. Do ponto 6 ao ponto 1 é o defluxo, o que nos permite estar em boa saúde, ter a capacidade corporal e psíquica de estar no fluxo e de estar no defluxo.
Têm pessoas que estão excessivamente no fluxo, que são muito ativas indo até para o estresse, que vão agir, fazer para se sentir existir, mais do que existir, fazer e agir. Esse tipo de pessoa, não gosta, tem problemas com as férias e com o repouso, elas têm medo do vazio. As pessoas que sofrem de insônia vão estar muito nesse fluxo e vão ter medo de se soltar, de se abandonar para entrar no sono e entrar no defluxo. Outras pessoas estão excessivamente no defluxo, por exemplo, ela pensa nas pessoas depressivas. O depressivo tem energia, mas não consegue fazer circular essa energia. Outras pessoas muito abertas, excessivamente e que são como um camaleão no desejo do outro, que não conseguem dizer eu, que estão na existência colado ao outro, colado no mundo. Vocês compreenderam... para a gente é importante ter essa fluidez corporal e psíquica, para passar do fluxo ao defluxo em função das diversas situações da vida.
Ela vai apresentar os 9 pontos do círculo. O ponto 1 é a necessidade, o ponto 2: a acumulação, o ponto 3: a identidade, o ponto 4: a força, o ponto 5: a capacidade, o ponto 6: o conceito, o ponto 7: a expressão, o ponto 8: o sentimento e o ponto 9: a orgonomia. No manual da escola ela procurou, para cada ponto, colocar de que forma trabalhar em cada etapa e também quais são as contra indicações e qual é a atitude do terapeuta na medida em que o paciente se encontra em determinado ponto. Ela procura analisar a relação terapêutica através desse círculo.
A gente parte do ponto 1 e eu vou inspirar. O ar que está no mundo eu pego para mim e eu o faço meu, é meu ar. Isso se torna meu, meu eu, é o meu território... depois eu expiro, do ponto 6 ao ponto 1 e eu vou devolver o ar ao outro, ao mundo, ao Universo. Para vocês notarem o bebê nasce em uma inspiração e a gente morre dando o último sopro, então nós podemos nos servir do círculo como toda uma trajetória de vida desde o nascimento até a morte, ou a gente pode se servir para analisar um momento, um segmento da vida. A inspiração corresponde ao fluxo, o fluxo de energia... é o que me permite estar de pé, ter uma verticalidade, uma identidade orgânica, de poder dizer “eu”. Do ponto 6 ao ponto 1 é o defluxo, o que nos permite estar em boa saúde, ter a capacidade corporal e psíquica de estar no fluxo e de estar no defluxo.
Começando pelo ponto 1... Esse ponto se chama necessidade, nós precisamos estar à escuta das nossas necessidades. Durante 9 meses todos nós habitamos no útero da nossa mãe e estivemos na nossa infância dependente da estrutura familiar. No ponto 1 a vida me é dada, a energia me é dada e eu me sinto nutrido. Eu não tenho nada para fazer, para agir nem para pedir, e a questão começa por aí: como eu sou nutrido? Se eu sou bem nutrido ou mal nutrido. Será que eu recebi suficientemente amor, carinho, respeito, reconhecimento... ou eu vivi uma falta, ou eu fui mal-tratado? Nesse ponto 1, nessa etapa, é uma etapa de regressão. O paciente vai contactar lembranças, experiências intra-uterinas e de nascimento... e o terapeuta qual é a posição que ele tem em relação ao seu cliente? Ele tem uma posição de boa mãe. A gente vai trabalhar com a restauração e é uma fase pré verbal onde o toque vai ser extremamente importante, o toque vai ser reparador, e é muito impressionante ver uma pessoa quando ela pode fazer essa experiência da gratuidade do amor, da gratuidade da vida, e ela vai se sentir profundamente reconhecida. Em termos psicanalíticos pode dizer que é a fase oral. Para o nosso trabalho nos colocamos em um espírito de acompanhamento corporal. A energia me foi dada no ponto 1 e eu posso acumular essa energia no ponto 2. Eu aceito começar a sentir os meus limites. O terapeuta vai conter o paciente que aos poucos vai poder se conter sozinho e aceitar ter limites. Na maior parte do tempo é o enquadre terapêutico que contém o paciente, ou seja, o ritmo das sessões, a duração das sessões, o contrato do paciente em relação ao dinheiro... tudo isso é muito protetor e estrutura o espaço. Têm pessoas que contém excessivamente e outras insuficientemente, por exemplo, pessoas fisicamente envelopadas contém muito, pessoas com constipação crônica também tem um excesso de contenção, e tem eternos estudantes que vão acumular diplomas, e mais diplomas e fazem uma coleção de diplomas, no nível psíquico esses colecionadores acumulam muito; sobre o plano do dinheiro pessoas que acumulam muito dinheiro também se tornando até mesquinhos e outras pessoas que não conseguem acumular. Pessoas com tendência histérica de estrutura histérica aonde a energia vai se dispersar o tempo todo. Em relação ao dinheiro, assim que tem um pouco de dinheiro já vai gastando tudo; então nesse ponto 2 a pessoa no seu percurso terapêutico vai sentir e fazer a experiência dos seus limites seja através de toque e massagem para sentir a sua forma, o seu contorno corporal, ou trabalhando com imagens.
No ponto 3 a vida me foi dada, a energia me foi dada, eu acumulo essa energia eu contenho essa energia e no ponto 3 eu me aproprio dessa energia, e vou para a ação, movimento com essa energia, ela é minha, eu inicio com eu preciso, e agora eu tenho essa energia. Vocês sabem como é importante uma criança encontrar a sua identidade, se diferenciar e se afirmar. É importante que ela possa brincar, então o eu e o jogo são muito ligados. Nesse ponto o paciente faz uma certa experiência de jogo com o terapeuta, por exemplo, em termos de confiança, desconfiança, distanciamento e proximidade... e é a fase de identificação e se a transferência é positiva o paciente quer se tornar como o seu terapeuta. Nesse ponto 3 ser capaz de dizer “é meu” e “isso me pertence”. É muito importante a criança poder dizer é meu brinquedo, minha boneca, meu carrinho, antes de poder dividir com o outro. Aceitar o eu, o tu, a diferenciação. E o terapeuta vai estar sempre devolvendo essa diferenciação entre ele e o paciente. Nesse ponto a gente vai encontrar realmente esse sentimento de identidade e a gente trabalha muito em torno do passado da pessoa: como ela se construiu em relação ao seu pai, à sua mãe, à sua família... é o momento onde ela vai poder fazer uma triagem de valores e de crenças.
Eu tenho energia, eu movimento, eu me aproprio... a energia está subindo e eu encontro o ponto 4 que é a força. A força significa que eu posso canalizar minha energia e dar uma direção. Ajudar a pessoa a encontrar a sua força... e isso pode causar muito medo. Nas terapias com homens, os homens têm medo de encontrar essa força porque eles têm muita. Essa força pode estar à serviço de uma construção ou de uma destruição. Como poder trabalhar organicamente a força? É freqüentemente um trabalho de enraizamento, um trabalho com a voz... e aí entra muito o lugar do pai e o lugar da lei. A lei que vai apoiar a pessoa, dar suporte, canalizar... a lei que também pode confrontar e castrar. Nesse ponto 4 o terapeuta tem uma função psíquica paterna seja homem ou mulher, o pai dando suporte, dando confiança, estimulando para o mundo... o pai protetor que vai auxiliar na energia e dar uma direção. Existem muitos problemas nesse ponto, sobretudo para as pessoas que vivem uma ausência da figura paterna. Uma criança que viveu essa falta paterna vai buscar na escola, com seus professores confrontações, limites, ou também vai buscar isso na sociedade. Limites para sentir essa força. O inverso também pode existir: um pai muito autoritário que vai diminuir completamente, abafar o eu da criança, a criança se tornando adolescente vai se tornar muito revoltado ou completamente passivo, submisso. Neste ponto é muito importante ter em si, sobretudo nas mulheres, enquanto psicoterapeuta mulher um pai estruturante.
Agora a gente está entrando no nível do desejo. Eu preciso, eu tenho com a minha identidade, energia, e agora eu quero, eu desejo. Minha energia vai subindo e a gente chega no ponto 5, na capacidade. Aí são as imagens, no imaginário, com a energia que eu posso canalizar qual a direção que eu vou tomar. Eu sinto a força e agora o que eu vou fazer. Todos os possíveis são possíveis, é o mundo das imagens, das fantasias... e nesse ponto tem pessoas que vão se perder, por exemplo, os adolescentes que ficam no mundo dos sonhos e não conseguem encarnar alguma direção, que vão ficar num mundo muito pessoal. É interessante observar na terapia o mundo dessa capacidade de estar mais fechado, por exemplo, uma mulher que se queixava dos homens que encontrava... “ai não tinha isso, não tinha aquilo, não dava certo”... ela estava sempre nessa queixa e a Anne pediu para ela imaginar o amante ideal e a imaginação dela foi muito pobre, era muito próxima, colada à realidade que ela vivia. Uma outra mulher se sentindo muito complexada porque não tinha realizado os estudos, ela era muito inteligente e ela conseguiu sentir a força dela no processo terapêutico e uma vez a Anne trouxe informações de equivalência para entrar na universidade, mas ela não conseguia se imaginar enquanto estudante, então elas fizeram um trabalho de abertura de suas capacidades e depois ela conseguiu se projetar, ela não conseguia se projetar, daí ela começou seus estudos superiores.
A gente está chegando agora no ponto 6. Eu estou no ápice da inspiração, no ápice do fluxo e é um ponto que se chama o conceito e é o ponto da escolha, é muito difícil escolher a nossa liberdade e têm pessoas que não querem escolher ou que não podem escolher porque é muito angustiante escolher. Estar livre para uma escolha demanda uma maturidade, uma consciência, e muitas pessoas deixam a vida escolher para si. Então nesse ponto 6 eu preciso escolher. Isso pode angustiar muitos pacientes porque quando a gente escolhe a gente faz a experiência da morte e da perda. Se eu escolho o sim eu perco o não, se eu escolho o não eu perco o sim. Então essa experiência da perda, tem um preço a pagar em cada escolha. Nesse ponto 6 a pessoa em terapia vai pensar, vai refletir, elaborar e poder fazer escolhas diante do terapeuta no processo e o terapeuta é testemunha dessas escolhas. O terapeuta vai ter uma certa exigência em termos do pensamento, do vocabulário, da precisão das palavras mas em caso algum ele pode escolher pelo paciente. Ele pode abrir um panorama, você pensou nisso, naquilo, naquele outro ponto, para abrir a visão para que ele possa fazer uma escolha. Fazendo a escolha a gente passa do nosso mundo, do eu, ao encontro com a realidade, o mundo, os outros. O eu encontra o nós e eu vou encontrar o princípio de realidade, e isso vai ser a expressão como eu vou encarnar a minha escolha, o que eu vou fazer, o que eu vou construir, qual vai ser a minha ação no mundo. Então eu preciso, eu tenho, eu quero, eu faço, eu realizo, eu encarno. Tem pessoas que não conseguem encarnar, pessoas que falam muito, falam muito bem e postergam todas as suas ações, tem um medo de realizar. Isso é um grande sofrimento e é necessário trabalhar sobre isso.
Nesse ponto 7, o terapeuta vai dar suporte para a expressão da pessoa mas ele não faz pelo paciente, por exemplo aquela paciente que tinha medo de se tornar estudante, claro que não é a terapeuta que vai fazer o procedimento de inscrição na faculdade. É importante não fazer pelo outro, nesse ponto 7 é importante distinguir a passagem ao ato da ação propriamente dita. Uma passagem ao ato é quando tem a energia e a pessoa diretamente expressa, ela não sente, ela não pega um tempo suficiente de elaborar interiormente e fazer uma escolha, então ela faz uma passagem ao ato, por exemplo, ela pára a terapia sem falar com a terapeuta. Se a gente quer finalizar uma terapia, há uma elaboração a ser feita na relação terapêutica e o terapeuta precisa respeitar a liberdade de alguém que quer parar a terapia. A terapia é fundada sobre a liberdade. A colocação em ato, a ação é o inverso, a pessoa teve um processo de maturação, de elaboração, e aí ela pode fazer a sua escolha. Vocês podem imaginar nas relações amorosas ou nas terapias de casal como é importante, e na terapia de casal, o casal possa elaborar o que funciona entre eles e o que não funciona, o que traz uma ligação e o que separa. È importante não existir essas passagens ao ato, por isso que é tão importante, o terapeuta pede que não seja tomada nenhuma decisão durante esse tempo de elaboração. Será que o casal vai conseguir atravessar uma crise e retornar a olhar em uma mesma direção, ou ao contrário, será que o casal vai se separar? Aí é necessário ter exigência de uma elaboração e isso requer tempo.
A gente chega no ponto 8. A energia entra num defluxo, na expiração. A energia agora está descendo no coração que é o lugar dos sentimentos e das emoções. Nesse ponto do sentimento existem casos extremamente diferentes. Tem pessoas que tem muito pouco contato com seus sentimentos, com suas emoções, e outras que estão completamente mergulhadas e se afundam, se afogam... por exemplo, um homem de negócios que tem muita responsabilidade, ele vai ter uma identidade forte, muita força, muita imaginação porque tem um espírito competitivo, ele precisa o tempo todo fazer uma escolha com muita rapidez dentro de uma empresa e ele realiza. Algumas vezes ele vai até 7,5, mas ele não pega o tempo para ele, para sua vida pessoal, amorosa, e aí ele já volta para o ponto da identidade, ele não completa e ele vai se identificar com seu trabalho com sua empresa, e vai viver a sua vida no alto do círculo. Ele não conhece as suas necessidades e ele não consegue entrar no defluxo completo. Esse tipo de personalidade corre o risco de fazer uma crise cardíaca bem cedo, 60 anos ou menos. No sentimento a gente encontra toda a problemática da ligação, do vínculo. E como uma pessoa, um casal vive o seu casal, vive a relação... Como ela pode viver essa fusão, a construção de um nós e como ela pode sair dessa fusão, desse nós e falar eu. Em um casal existe toda uma dinâmica física, psíquica, corporal, sexual... quando tem 2 indivíduos que podem se encontrar e fazer o “nós” e novamente se colocar a distância para viver o seu eu cada um. O perigo de ficar o tempo todo na fusão é porque existe uma falta de dinâmica e abastecimento no casal. Às vezes em um casal se tem a impressão de ser irmãos e o casal cada vez mais vai se empobrecer, outras pessoas vão colocar os seus eus muito distantes um do outro, porque talvez eles tenham medo de construir esse território em conjunto, medo da intimidade, é todo um trabalho sobre a relação, a capacidade de experienciar a relação e nesse ponto o terapeuta pode ser objeto de fortes transferências. A transferência dinamiza o psiquismo da pessoa, por exemplo, alguém que é deprimido, depressivo, ao longo da terapia ela pode se apaixonar pelo seu terapeuta homem... isso pode ser formidável porque ela projeta e a vida, o Eros retorna nela. O problema é que se tiver fixação esse movimento transferencial se torna fixado, se torna neurótico, mais problemático ainda se há uma exploração dessa transferência pela parte do terapeuta, fazendo uma passagem ao ato com o cliente.
Chegamos ao ponto 9 no final do defluxo, no final da expiração, e estamos no ponto 9 chamado de orgonomia. A orgonomia é uma palavra que Paul Boyesen se inspirou em Reich. A orgonomia todo mundo vivenciou quando a gente está em uma praia que a areia é quentinha, com o sol que aquece, e a gente fica só escutando o som do mar. A orgonomia é um bem estar e é um bem estar onde eu posso viver sozinho, eu não preciso do outro. Eu faço a experiência de me sentir bem olhando o pôr do sol. Nessa orgonomia eu obtenho, eu me sinto satisfeito, eu vivo um estado de completude, plenitude.
Quando vocês fazem a experiência de um círculo que circula em um momento da sua vida: eu preciso, eu tenho, eu escolho, eu faço, eu obtenho. É uma experiência extremamente satisfatória, e isso acontece, a gente experiencia e circula. Isso é um círculo perfeito, é um modelo e nós somos seres com muitas imperfeições e dificuldades. A gente tem faltas, falhas, dificuldades de toda sorte, então esse círculo não vai ser um círculo perfeito nas pessoas. Vai ter uns lugares que vai ficar em excesso e alguns lugares que vai ficar faltando e isso faz parte da nossa humanidade. Um exemplo: eu preciso, eu quero, eu faço e eu obtenho... tudo está bem. Eu preciso, eu desejo, eu quero, eu faço e eu não obtenho... e eu vivo uma situação da vida que eu não obtenho. Eu mantenho a minha necessidade na medida em que eu não obtive, eu ainda desejo, eu faço mais ainda e eu continuo não obtendo, e aí eu vou precisar mais ainda, e eu começo a ter menos gosto pelo desejo e eu começo a ter menos força para realizar e eu não obtenho. E eu me identifico com... eu não tenho nada, eu não desejo nada, eu não faço nada e eu obtenho, evidentemente, menos ainda; e eu me sinto nada. Esse é o círculo infernal do depressivo.
Para fechar com alguma coisa de mais otimista antes de abrir para alguma questão, ela gostaria que vocês refletissem para vocês quais seriam os pontos que vocês conhecem que são familiares, pontos que vocês evitam... o essencial é que vocês possam ter consciência do teu funcionamento e que vocês possam começar a utilizar esse círculo um pouco como um jogo, que possa dizer o que eu evito, como é que eu me movimento nesse círculo.
O objetivo então dessa transmissão, dessa conferência, era de transmitir o modelo desse círculo que o Paul Boyesen criou, esse círculo é uma das estruturas de base na formação de Análise Psico-Orgânica, por exemplo, hoje a Anne fez uma supervisão e ela trabalha com os colegas, perguntando em que ponto do círculo a pessoa se encontra naquele momento da terapia. O pensamento circular é um pensamento sintético, é uma tentativa de colocar em conjunto a psique e o soma, e ela se dá por satisfeita se vocês guardarem que é uma circulação, que a vida é uma circulação. Ela agradece.
Se tiver alguma reverberação, alguma questão, algum compartilhar de alguma reflexão... alguém gostaria? Ousem!
- Pergunta inaudível.
Isso se passa praticamente em permanência na vida porque você tem um pensamento “vou realizar ou não”, são pequenos círculos que você faz entre você e o mundo.
A prova da realidade é que toda a energia que você tem, você sempre vai perder uma parte dela, você só pode encarnar um trecho, e tem pessoas que não querem perder os seus ideais, é um grande sofrimento, perder os ideais e o ideal de si mesmo. Tem pessoas que tem o ideal do amor, por exemplo, e que não vão se arriscar em uma relação amorosa, fica na idealização.
- Eu observei que foi usada essa palavra “encarnar”. O que ela quer dizer com essa palavra?
Ela pega a tradução bíblica: “No início era o verbo e o verbo se tornou carne, corpo”. E no nosso trabalho de psicoterapeuta a gente segue o caminho do espírito para o corpo, é o que a gente chama também “verbar” o corpo, o caminho inverso, por exemplo, uma pessoa que chega com um sofrimento somático: tenho dor na barriga, claro que não tem nenhuma doença orgânica. Você pode pedir para ela se deitar, respirar no lugar que ela sente essa dor e a gente vai trazer a carga através da respiração vai ter uma tensão maior ali, uma atenção, e você pode pedir qual a imagem que aparece nesse momento e ela pode trazer uma bola preta, respira então nessa bola preta, como é esse preto, que consistência tem... e ela vai dar uma qualidade, é o que a gente chama de “verbar” o corpo até a pessoa encontrar o sentido dessa sensação e ela pode fazer todo um trabalho associativo dessa bola negra até a mãe dela. Encarnar é dar corpo, dar forma.
-Pergunta inaudível.
Ela tem um corpo, um inconsciente, um espírito... e em função do que ela vai pedir na terapia ou o que ela enquanto terapeuta vê e pode propor, sugerir, ela vai poder apoiar mais a linguagem do corpo ou ela pode escutar a linguagem do inconsciente através de sonhos, ou ela pode escutar mais o aspecto do espírito, ela não vai definir qual o espírito da pessoa... determinadas pessoas vão ficar no nível da inteligência, do mental, outras vão poder ter determinadas experiências espirituais, místicas, enquanto terapeuta ela não projeta no cliente dizendo o espírito é isso ou aquilo, ela se dispõe em se colocar aberto à escuta da música interior, deixar abrir e aparecer a sua própria espiritualidade. Ela pensa que uma psicoterapia mesmo quando a pessoa vem sofrendo, vendo que não está bem, em um determinado momento ela vai se colocar uma questão sobre o sentido, as crianças trazem isso, quem sou, da onde eu venho, para onde eu vou... questões existenciais que uma criança de quatro anos vai formular.
- Pergunta inaudível.
Numa terapia a gente não inicia propriamente no ponto 1 para chegar no ponto 9. Pode ter uma pessoa que chega com uma demanda muito focada na relação do trabalho precisando resolver essa questão, para essa pessoa é contra indicado regredir, é necessário compreender o que está se passando para ela, analisar a situação, talvez olhar, entrar psiquicamente em seus comportamentos sadomasoquistas, a regressão para algumas pessoas no percurso de psicoterapia, elas vão tocar lá, tem uma inversão energética, uma introspecção muito profunda com uma busca de conectar a origem. E também é um tipo de experiência que pode levar para a involução, para a morte... ou pode ser uma regressão que leve a um o abastecimento, a uma fonte que devolve para a vida, é difícil para o terapeuta suportar regressões bem profundas. Ela tinha uma paciente que trazia sonhos, onde ela vivia bebês que eram mortos. Uma pessoa estéril e que desejava ter um filho, objetivamente ela tinha um companheiro, mas existia uma morbidez muito forte nos sonhos dela que para a Anne a forma que ela tinha para se proteger era dormir e ela ficava muita chateada com essa reação, ela foi fazer uma supervisão para falar sobre o caso e era um mecanismo de proteção dela enquanto terapeuta porque o sonho era tão mórbido que invadia a psique dela, da terapeuta e em um determinado momento a paciente conseguiu se descolar dessa mãe devoradora e aí teve todo um renascimento. Na nossa formação de psicoterapeuta os estudantes vão fazer trabalhos dentro desse processo de regressão porque a gente trabalha com o tema do nascimento.
Transcrição: Priscilla Kessedjian
Revisão: Silvana Sacharny
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