A Análise Psico-Orgânica


A ANÁLISE PSICO - ORGÂNICA UMA ABORDAGEM UNICISTA DA PESSOA

Conferência de Anne Fraisse traduzida por Silvana Sacharny em 27.7.98
Rio de Janeiro

I - INTRODUÇÃO
Estou contente de estar esta noite com vocês e agradeço a vocês por terem vindo me ouvir e trocar algumas reflexões sobre psicoterapia, mais particularmente sobre um método de psicoterapia: a Análise Psico - Orgânica.
Esta é a minha quarta viagem ao Brasil, e a cada vez gostei de trabalhar com Silvana Sacharny e com os alunos, bem como de descobrir seu magnifico país.

PUBLICAÇÃO
Uma das minhas alegrias é que o livro que escrevi em 1994 em francês acaba de ser publicado com o título : "Fonte de Fogo".
Agradeço a meus editores, Humberto Oliveira e Jaime Calixto que confiaram nesse livro. Desejo ao "Fonte de Fogo" uma boa difusão - que o caminho que foi o meu por um percurso analítico e espiritual possa falar ao coração de cada um, pois "Fonte de Fogo" é um livro que fala de sensibilização e de amor.

APRESENTAÇÃO
Estou aqui hoje para apresentar a vocês um método de psicoterapia chamado Análise Psico - Orgânica, fundada há mais ou menos 25 anos por Paul Boyesen, que esteve aqui em novembro de 1997 para apresentar essa abordagem. Ele é o autor de um livro chamado "Para quem desperto de manhã ? ". Há 25 anos trabalhamos juntos, ele, sua mulher Joelle Boyesen, e outros colegas. Fundamos a Escola Francesa de Análise Psico - Orgânica que tem por finalidade formar psicoterapeutas.

ANÁLISE PSICO - ORGÂNICA, UM MÉTODO EUROPEU

Esta abordagem faz parte dos 17 métodos europeus que estão em curso de reconhecimento para obtenção do Certificado Europeu de Psicoterapeuta (CEP). A EAP, Associação Européia de Psicoterapia, agrupa atualmente 30 paises e representa 160.000 profissionais. Esta associação criou este Certificado. Meu marido, aqui presente, Dr. Michel Meignant fará uma breve intervenção ao final da minha conferência a fim de dar-lhes algumas informações.
Minha intenção, esta noite, é de dar-lhes um breve histórico da Análise Psico - Orgânica, e depois tentaremos responder à questão: "como trabalha o analista psico - orgânico" e para isso partiremos de exemplos clínicos.

UMA ABORDAGEM UNICISTA

A abordagem unicista do indivíduo, a abordagem global, a abordagem holística, é ao mesmo tempo complexa e paradoxal. Ela não é fácil. Muitas vezes o profissional gostaria de possuir técnicas, receitas, certezas, mas não é o caso. Temos, no entanto, sólidos conceitos, teorias precisas, ferramentas eficazes que evoluem junto com a própria imagem do homem.
A abordagem do homem enquanto unidade funcional implica antes de tudo numa ética (lembrando ao profissional) de que o paciente não está ali para conferir as teorias, mas que nós estamos ali a serviço de nossos clientes e é através da relação terapêutica que nós confirmamos, afirmamos, elaboramos, descobrimos teorias. Dito de outra maneira, o psicoterapeuta aprende permanentemente com o paciente, o que o coloca numa posição de humildade e de criatividade.

II - UM BREVE HISTÓRICO DA ANÁLISE PSICO - ORGÂNICA

Identidade
A Análise Psico - Orgânica, teoria e método elaborados por Paul Boyesen, inscreve-se no campo das terapias com mediação corporal - este método alia intimamente o trabalho corporal ao analítico. Como ilustração, poderíamos dizer que o verbo atua no corpo, que ele o modela. Por exemplo, quando um pensamento é inibido, ele se cristaliza, deixando traços que são ao mesmo tempo psíquicos, como a resignação, ou ao contrário, atitudes agressivas, e deixando traços físicos como estases, tensões, somatizações. No outro extremo um toque se propaga no corpo, provocando emoções, imagens, palavras. Tocando o corpo de uma pessoa, não tocamos apenas sua pele ou seus músculos, mas toda a pessoa, corpo-alma-espírito. O analista psico-orgânico tenta portanto fazer ligações entre as abordagens analíticas e o corpo, ligações entre a verbalização, as imagens, o movimento da energia no corpo, ligações entre a sensação, o sentimento e o sentido.

As Heranças

Da parte psicanalítica:
A Análise Psico - Orgânica trabalha com o inconsciente. O profissional escuta, acolhe, deixa emergir o inconsciente e trabalha com ele, com o seu e com o do outro. Para Paul Boyesen, o inconsciente é situacional, isto é, o diálogo consciente - inconsciente se modifica, se mobiliza, em função das situações de nossa vida cotidiana.
Heranças também na medida em que consideramos a transferência e a contra-transferência como motor da terapia. Introduzimos a noção de transferência orgânica e de contra-transferência orgânica.
Somos mais marcados pela abordagem Freudiana, Junguiana, Lacaniana? Isso depende dos percursos analíticos de cada um e de sua sensibilidade. De minha parte, fiz uma análise Junguiana com Elie Humbert que por sua vez foi analisado por Carl Gustav Jung com quem eu divido uma parte no "Fonte de Fogo". Acho que o pensamento de Paul Boyesen tem pontos de encontro com o pensamento de Jung e vou citar dois exemplos:
por um lado o círculo psico - orgânico, referência de base de nosso trabalho, é uma abordagem sintética do ser, um pensamento circular que lembra a importância do círculo para Jung, a mandala, o círculo como uma maneira de representação do self.
Por outro lado o PIT do trabalho sobre o impulso primário apoia-se no confronto entre a mãe real e a mãe simbólica, o pai real e o pai simbólico que tem relação com os arquétipos e as imagens arquetipais.

Da parte corporal:
A Análise Psico - Orgânica é herdeira de Reich e de Gerda Boyesen.
Reich foi de fato o primeiro a mostrar que podiamos alcançar o inconsciente através do corpo. Ele utilizou o conceito de couraça caracterial para descrever como os músculos guardam a memória dos acontecimentos passados e como, através deles, podemos atuar sobre a neurose.
Gerda Boyesen é a mãe de Paul Boyesen. Ela tem hoje 75 anos e eu também fui formada por ela. Ela fundou a Psicologia Biodinâmica e durante mais de 10 anos seus filhos Ebba, Mona e Paul Boyesen participaram do desenvolvimento da Psicologia Biodinâmica. Gerda Boyesen é autora do livro "Entre Psiquê e Soma" que teve muito sucesso.
É normal, eu diria até indispensável, que um filho se separe de sua mãe, faz parte da construção edipiana. Paul o fez criando seu próprio pensamento, seu próprio movimento, não contra sua mãe, mas para si mesmo, além de si mesmo, e reconhece os preciosos aportes da Psicologia Biodinâmica. Se Gerda Boyesen interessou-se particularmente à micro regulação do corpo graças à sua descoberta do psico-peristaltismo, Paul Boyesen interessou-se mais particularmente à macro regulação. Se Gerda desenvolveu mais a função da sensação pelo toque e pelas massagens, Paul se perguntou se a sensação teria um sentido; ele desenvolveu o trabalho com os sonhos, as imagens, as representações e a linguagem.
Herdeira com certeza, a Análise Psico - Orgânica deve um reconhecimento a seus pais, Freud, Jung, Reich, Gerda Boyesen e a seu pai fundador Paul Boyesen, mas ela também é original, criativa, em permanente evolução.
Atualmente, na França, a revista Adire é publicada anualmente e os últimos temas foram O casal, A infância dividida, O homem, Masculinidade Paternidade, Ética, Amor e Lei.
Na Alemanha, uma revista equivalente é publicada com o nome de "Dialog". Por outro lado, a escola francesa de Análise Psico - Orgânica publicou 5 manuais de ensino para os estudantes de psicoterapia. Isso demonstra uma riqueza e uma certa efervescência intelectual.

III - A PRÁTICA CLÍNICA A PARTIR DE ESTUDO DE CASOS

Após um breve histórico, eu vou dividir com vocês nossa prática clínica e para isso vou me utilizar de casos clínicos. Partimos das seguintes questões: com que pessoa, em que momento do processo, por que e como as diversas linguagens terapeuticas vão se desenvolver, linguagem do corpo, das imagens, da energia ou das palavras?

O trabalho corporal, abordagem da sensação
Para ilustrar a abordagem corporal vou tomar 3 exemplos, um em início de terapia, outro durante o processo e o terceiro no final do percurso terapeutico.

No início de psicoterapia: Maria
Maria é uma mulher de 50 anos que veio com uma demanda de terapia por um mal estar geral e uma dificuldade em viver. As primeiras sessões se passaram face a face e Maria não parava de falar. Eu não conseguia colocar nem uma palavra. Eu tinha a impressão de que ela derramava a cada sessão sua dificuldade em viver, como uma garrafa que se esvazia; esta se enchia durante a semana e novamente ela a derramava. Ela tinha uma tendencia histérica acentuada e suas palavras flutuavam, não tinham peso.
Eu achava que seria preferível trabalhar sobre a forma da garrafa e não sobre o conteúdo. Eu lhe propus deitar-se e fechar os olhos para interiorizar, o que lhe foi impossivel, tamanha a sua angústia . Eu lhe propus um trabalho respeitoso e leve, a partir de sua repiração e do relaxamento, e a cada sessão, durante os primeiros quinze minutos, como um ritual, Maria pode começar a relaxar, confiar em seu corpo, acolher sua respiração. Sua necessidade de falar era tão grande que ela utilizava o resto da sessão para isso, mas seu ritmo diminuiu, suas palavras ganharam peso e eu podia pará-la numa frase e questionar o sentido do que ela havia acabado de dizer.
Eis um exemplo de introdução do relaxamento e da respiração no início de um processo de psicoterapia.

Durante a psicoterapia: Liana
Liana é uma jovem da Martinica, uma psicóloga que veio fazer seu doutorado em Paris sobre a doença mental dos habitantes das Antilhas em função da aculturação. Seus estudos, suas referências eram antes de tudo, Freudianas, mas ela escolheu conscientemente fazer um percurso com uma terapeuta psico corporal. Após algumas semanas face a face, Liane deitou-se, trabalhando sobre seu passado e trazendo seus sonhos. Várias vezes convidei-a a tirar seus sapatos, sem sucesso, e eu aceitava sua recusa me perguntando que sentido teria isso para ela.
Durante o primeiro ano eu não tive acesso a seu corpo, nós nos mantínhamos distantes. E foi durante um estágio de verão em grupo que emergiu para ela a linguagem corporal, principalmente num dia em que ela se posicionou no centro de um círculo de 20 participantes e começou a dançar descalça; num primeiro tempo foi uma dança de enraizamento, próxima da terra, e podia-se sentir a África. Depois ela segurou os tornozelos, mostrou um corpo em sofrimento, um olhar cheio de ódio e começou a dançar a dança dos escravos, arrastando os pés. Nós estávamos todos em silêncio, transtornados pelo que ela estava vivendo. Ela parou sua dança diante de mim, eu, sua psicoterapeuta branca, ela a paciente mestiça, descendente de escravos vindos da África, e me ofendeu. Eu recebi essa transferência negativa e mantive o contato com ela pelo olhar. Então sua dança se transformou e tornou-se leve, giratória. Nesse momento minha intuição era a de que ou ela encontraria animais de poder, ou ela encontraria o totem de seus ancestrais africanos. No momento de seu feed-back ela me confirmou que havia encontrado o totem de seu clã do lado paterno e que havia ficado completamente transtornada. Compreendi então porque ela havia conservado seus sapatos durante todo o primeiro ano de sua psicoterapia, e o quanto tinha sido essencial que eu a respeitasse. Teria sido inconcebível que, por exemplo, eu lhe tocasse os pés e mais ainda que eu lhe fizesse massagens nos pés. Seus sapatos-proteções diziam: nos meus pés, nas minhas raizes, encontra-se a história de meu povo, e eu falarei disso quando tiver bastante confiança, no momento certo. Alguns anos depois eu encontrei Liana em Quebec, num congresso de psicoterapeutas. Ela havia se casado com um médico branco, eles haviam se mudado para o Canadá e tinham dois adoráveis filhos mestiços.

Em fim de percurso: Dany
Dany é uma psicoterapeuta experiente, com um duplo percurso, analítico e corporal, em grupo e individual. Ela fez um pedido pouco claro para fazer um percurso comigo: "falta alguma coisa, eu não sei o que" ela me dizia. Se eu devesse resumir seu percurso comigo, eu empregaria as palavras da regressão ao nascimento. Ela tinha uma transferência positiva o que lhe permitiu regredir, soltar-se. A cada sessão ela vinha aconchegar-se a mim, e eu a segurava, continha, nutria. Esse trabalho de holding seria reparador, quanto tempo iria durar? Em silêncio, eu estava permanentemente atenta às minhas sensações, à minha contra-transferência orgânica. Ora, num certo momento eu senti que em vez de ser reconfortada, nutrida por esse contato ontológico, Dany escapava, seu corpo se tornava leve como se não fosse mais habitado. Então eu decidi falar-lhe, sendo sempre continente, o que podemos chamar um tocar-falar ou unir a sensação e o sentido. Em consequência, ela pode analisar sua experiência da seguinte maneira:
Quando ela se via no ventre de sua mãe, intra-útero, o contato comigo era assegurador e reparador, e ela experimentou o não-tempo e a gratuidade do amor. Depois ela foi além do nascimento e perguntou-se sobre sua concepção com um C maiúsculo, sentiu o não desejo de seus pais e teve vontade de morrer. O fato de eu lhe falar, colocar palavras, chamá-la por seu nome, foi como uma chamada que dava um sentido; assim ela pode dizer sim à sua concepção, sim à sua encarnação: "no início era o verbo e o verbo se fez carne, eu senti profundamente em meu corpo o sentido dessa parábola bíblica", disse Dany.

Acabo de dar 3 exemplos sobre a sensação, de trabalho a partir do corpo, a partir do toque, da respiração, do movimento, e agora eu passo para um outro nível, o das imagens e das representações.

As imagens e as representações
É importante trabalhar com as imagens. O perigo de uma análise unicamente verbal seria o ressecamento por excesso de pensamento, de logos, e é o perigo do lado do pai. Mas também existe perigo em se trabalhar unicamente com os sonhos e as imagens, é o perigo de afogamento na grande-mãe, no inconsciente . Um processo terapeutico acolhe o que vem do corpo ( a sensação) , o que vem da alma ( o sentimento), e o que vem do espírito (o sentido).

Uma luta contra o escuro: João
João é um homem jovem, de 24 anos, educador infantil. Ele iniciou uma psicoterapia porque tem uma tendência à pedofilia, o que significa que ele se sente atraído por crianças. Até agora ele sublimou suas pulsões, mas ele está consciente do perigo pessoal e jurídico que acarretaria uma passagem ao ato e quer evitá-la a qualquer preço.
Ele me conta a história de sua infância, e verifica se ele não sofreu algum abuso sexual, o que não é o caso. Então, depois dessa primeira fase de terapia verbal em que a confiança e a transferência se estabelecem, eu proponho que ele trabalhe mais com o insconsciente. João não se lembrava de seus sonhos, então, quando ele estava deitado e com os olhos fechados, eu o convidei a compartilhar o que ele estava vendo. Durante 3 meses ele não tinha nenhuma imagem : "eu vejo um escuro", dizia ele; ele se habituou pouco a pouco com esse escuro, respirando neste escuro. "Esse escuro é alguma coisa" eu lhe disse "não é um nada", mas ele estava colado, no indiferenciado, na noite. Um dia isso se descolou e ele ficou transtornado por experimentar andar através desse escuro, do um, de uma fusão mortífera , ele acabava de passar para o dois, ele e o mundo. Finalmente as imagens apareceram, junto com as lágrimas, quando ele pode ver o menino que ele era. Assim, as lembranças, as situações, as imagens do passado habitaram-no. Ele compreendeu que através da criança exterior ele procurava a criança interior que ele havia perdido. Desenvolveu-se um trabalho de reparação, de renarcisação, de diálogo com a criança interior através de imagens, simbolos, depois ele começou a se lembrar de seus sonhos e trazê-los à psicoterapia. Ele tinha prazer em dividí-los, em analisá-los. E assim se restabeleceu o diálogo consciente - inconsciente.

Da depressão à criação do Mundo: Mora
Esta professora era muito depressiva e várias vezes teve que parar de ensinar. As licenças médicas e os remédios permitiam que ela fosse se mantendo, mas por duas vezes ela teve que ir para uma clínica especializada em sonoterapia.
Ela se encontrava, portanto, sob efeito de medicamentos quando começou uma psicoterapia comigo. Em seguida o sintoma se agravou, ela regrediu e tocou aquilo que ela chamava seu estado depressivo: perda de desejo, do gosto de viver, desejo de morrer. Era preciso mergulhar nisso, ir mais fundo, mas existiria um fundo que ela pudesse atingir e, como um mergulhador que toca o fundo do mar, subir ?

Sentindo que sua depressão se acentuava, eu propus vê-la todas as manhãs de 7:00 às 7:30, antes de começar meu dia de trabalho. Assim ela deveria se levantar a cada manhã e eu esperava que essas sessões diárias bem curtas pudessem manter sua cabeça fora d'água. Ela começou a desenhar e a trazer seus desenhos para me falar deles nas sessões. No fim de uma semana, sua produção foi de 30 desenhos que ela arrumou no tapete do meu consultório. Qual não foi nossa surpresa ao ver uma história em quadrinhos representando a Criação do Mundo. No início, o indiferenciado, depois alguns desenhos aquáticos em tons de azul, depois o mar se separou da terra, e eu vi aparecer em alguns desenhos, árvores, depois animais, e finalmente seres humanos. Mora havia desenhado um casal de pais simbólicos, pessoas pobres, pescadores vivendo numa cabana à beira mar. Assim ela aceitou ser ela mesma uma filha de pescadores e eu fiz várias perguntas sobre a queda, o pecado original, o mal, o sofrimento...
Esta produção criativa de desenhos e o sentido que ela encontrou neles evitou sua hospitalização, mas isso não foi suficiente para que ela saisse de seu estado depressivo, e seu percurso foi longo e requereu muita perseverança. No entanto ela encontrou, por um lado, o prazer em desenhar, de criar, e de outro, um sentido.

Sonho, presente e jóia: Beatriz Eu não via Beatriz há 4 anos. É uma estudante que terminou sua formação na escola francesa de Análise Psico-Orgânica. Reconhecemos suas capacidades e ela recebeu seu certificado. Por onde andaria ela? Teria ela aberto um consultório, receberia ela pacientes?
Também muito feliz em me encontrar, ela me contou o seguinte sonho:
"um ano depois do final de minha formação, uma noite eu sonhei que você chegava, que você estava diante de mim e que você me dava um presente, uma jóia. Quando eu acordei, esse sonho me habitava completamente e eu desenhei a jóia. Em seguida, eu encomendei essa jóia a um joalheiro". Beatriz me mostrou um magnífico pendente em forma de oito com uma pedra, que ela trazia no pescoço.
"Para mim" disse ela, "o oito é o signo do infinito e isso me lembra a massagem de cruzamento que você nos ensinou".
"Essa jóia é magnifica, e presenteando-se com ela você se reconheceu profundamente como psicoterapeuta".
"Sim, disse ela, eu abri um consultório em Lausanne e tenho agora 15 pacientes".
Existem sonhos que se analisam, e outros que são para serem vividos, e mudam nossa vida. Eu também fiz essa experiência e eu divido alguns sonhos de ensinamento e de iniciação no livro "Fonte de Fogo".

À procura do sentido e a importância da linguagem
Não há uma pessoa que faça uma demanda terapeutica que não tenha questões existenciais como: de onde venho, quem sou eu, qual é o meu caminho, o por que do sofrimento, o que é o amor, o que é a vida, o que é a morte, o que existe depois da morte?
É claro que as formulações podem variar, mesmo com as crianças. Qual não foi o espanto de um pai cujo filho de 6 anos perguntou "por que vocês me fizeram, por que sou eu e não um outro"?

À procura da filiação: Vincent
Vincent tem apenas 18 anos, é um cigano que aos 5 anos foi tirado de sua família e passou por várias instituições até a idade de 9 anos, quando foi acolhido pela escola da vida, um lugar de vida que acolhe casos sociais, fundado por colegas da Análise Psico-Organica. Vincent viveu nesse lugar dos 9 aos 18 anos, com educadores e psicoterapeutas. Ele aprendeu a fazer telhados. Agora ele está na idade de deixar a instituição e de aprender a viver sozinho. Foi nessa perspectiva que a equipe que o acompanha me pediu para recebê-lo em meu grupo continuo de terapia que se reúne um fim de semana por mês e para o qual é necessário um engajamento mínimo de um ano.

Para Vincent foi um choque cultural, ele nunca tinha ido a Paris e no grupo havia pessoas de classe média ou alta que ele não tinha o hábito de frequentar.
Quando eu lhe perguntei por que ele queria fazer esse processo terapeutico , ele me disse: "porque eu quero ser pai e não quero fazer meus filhos sofrerem". É raro que um jovem de 18 anos fale de paternidade, ainda mais não tendo uma relação sólida. Pouco a pouco ele revelou sua história - abusado sexualmente por seu pai, ele foi levado para a instituição. Vincent , afirmando seu desejo de ser pai, projetava-se no futuro, dava a si mesmo uma direção, o que é um pai, o que é um filho, um enorme trabalho de reparação está se fazendo, uma transformação que vai contradizer o "pai faltante, filho marcado".

À procura de amor: Carlos
Carlos é cirurgião, e na primeira entrevista ele falou de sua dificuldade em amar: "eu sou um deficiente do coração, dos sentimentos". Ele se relacionava com uma mulher que o repreendia em sua incapacidade em exprimir seus sentimentos. Para ele, que era bem sucedido profissionalmente, estava claro que sua vida só teria sentido se ele fosse capaz de construir uma relação durável com uma mulher. Eles então começaram uma psicoterapia de casal, depois ele experimentou também um caminho individual.

O sentido da vida no momento da morte: Fernando
Fernando é um homem de 65 anos que me disse, na primeira entrevista, que ele tinha um cancer de fígado com metástases: "eu não tenho mais muito tempo de vida e eu gostaria de fazer parte de seu grupo de terapia". Surpresa por seu pedido, eu lhe propus um acompanhamento individual. "Sim, mas além do acompanhamento individual, eu quero participar do grupo".
Ele lhe falei do grupo de palavra para pessoas com cancer, ou do grupo de oração. "Não, respondeu ele, eu sou ateu e é num grupo de terapia que eu desejo estar". "Por que"? perguntei
"Porque eu quero viver até o fim em relação com ou outros".
Ele havia dado o sentido, a bola estava no meu campo. Eu iria dizer sim, o grupo seria bastante sólido para acolher Fernando que iria nos deixar logo ?
"Está bem" eu disse.
Fernando fez os grupos de setembro, outubro e novembro, e morreu na véspera do grupo de dezembro, cercado por seus 6 filhos.
"Viver bem até o fim em relação com os outros". Este era o sentido de sua vida. Nós aprendemos muito com ele e recebemos muito dele.

IV CONCLUSÃO

Eu gostaria de voltar à questão da visão unicista da pessoa em Análise Psico - Orgânica, e isto não equivale à noção de facilidade ou de simplicidade.
Cada pessoa terá seu próprio caminho, cada relação terapeutica é única. Alguns clientes partirão do corpo, da sensação, para ir para a consciência, outros partirão da palavra, do sentido, para ir para a sensação. Nesse cruzamento, eles encontram seu sentimento, que é a qualidade da experiência, e a função do sentimento permite que eles elaborem seu sistema de valores, a visão de si mesmos e do mundo, sua ética.

Eu gostaria de concluir citando um grande filósofo francês, "Emanuel Levinas":
"Meu olhar para o outro é minha visão de Deus".
Eu não sei quantos psicoterapeutas poderiam assumir, encarnar, viver tais palavras. De qualquer forma, esta seria uma bela direção para nossa profissão.


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