SEXUALIDADE, SENTIMENTO E SENTIDO
O Centro Brasileiro de Análise Psico-Orgânica - CEBRAFAPO tem o prazer de trazer, esta noite, a palestra de Paul Boyesen. O CEBRAFAPO é vinculado à Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica e trabalha da mesma forma, na mesma estrutura, e com o mesmo conteúdo pedagógico, com a intenção de formar psicoterapeutas. Depois de três anos e meio de trabalho, em setembro deste ano formamos a primeira turma e iniciamos um segundo grupo de Formação.
Paul Boyesen tem trinta anos de experiência enquanto psicoterapeuta; é Diretor da Escola Francesa de Análise Psico-Orgânica, Presidente da Associação Européia de Análise Psico-Orgânica, e Vice-Presidente da Associação Européia dos Psicoterapeutas, que atualmente tem em torno de 70 mil membros que reúne todo esse movimento na Europa.
A primeira conferência que Paul deu nesse espaço foi sobre a
Relação Amorosa, a segunda sobre
Masculinidade e Feminilidade, e a terceira, hoje, sobre
Sexualidade, Sentimento e Sentido; tem uma certa trilogia, e quem já ouviu as anteriores vai encontrar ligações, e para os que ouvem pela primeira vez, espero que se beneficiem.
Paul agradece a apresentação e diz que começa a entender mais a nossa língua e gosta muito do sotaque brasileiro. Paul pergunta à Silvana se ela tem certeza sobre o título da conferência -
'sexualidade, sentimento, e sentido'; ou não seria o inverso -
'sentido, sentimento, e sexualidade', ou
'sentimento, sentido, e talvez sexualidade'. É muito complexo porque começando desta forma é começar com a filosofia das sensações, ou toda uma filosofia sobre o sentido, ou começar diretamente com o tema da sexualidade. Normalmente pegamos muito tempo em torno deste tema da sexualidade; é muito delicado começar diretamente sobre esse tema, mas esse é o título.
Paul inicia com uma história de um homem e uma mulher que viajaram de um outro país para encontrá-lo em Paris - era muito importante, eles tinham um problema sexual. É delicado porque eles tinham uma problemática em torno da sexualidade; ela dizia que era ele que tinha o problema, e ele dizia que quem tinha o problema era ela. Isso foi na primeira sessão, uma discussão. Na segunda sessão eles chegaram alguns minutos atrasados e os dois estavam muito tensos, não falavam nada. Paul pediu que se sentassem, e eles não falavam nada. Paul olhou, ficou esperando, já que as pessoas não falavam nada e cabia a eles de falar alguma coisa.
Ela então fala ao marido: Estou com raiva de você.
Ele fala: Eu estou com raiva de você.
Ela: Eu estou com muita raiva de você.
Ele: Eu também.
Ela: Mas é sempre assim com você.
Ele: Nós tínhamos uma entrevista, e nos atrasamos, quase perdemos a hora.
Ela: Sim, mas isso não era tão importante.
Ele: Claro que era muito importante que a gente chegasse na hora certa.
Ela: Mas eu estava tão feliz de estar com você, de caminhar contigo nas ruas de
Paris.
Ele: Mas a gente tinha um encontro e precisávamos chegar na hora.
Ela: Mas eu queria estar com você, ver as boutiques.
Ele: Mas não era possível; era fundamental que estivéssemos aqui na hora.
Ela: eu queria ficar no prazer com você, olhar as lojas, me divertir, e olha no que
deu!
Ele: Não, não; nós tínhamos um encontro.
Paul então intervém: eu tenho a impressão que vocês estão falando sobre a
forma como vocês fazem amor!
O marido tinha a postura de que era necessário
chegar; e a mulher olhava sem ter exatamente um lugar preciso para chegar! Ali começou a se abrir alguma coisa para os dois, como uma polaridade: ele tinha uma obsessão de chegar e de estar sempre atrasado, e ela queria o prazer, o caminho. Ele, no seu espírito, no seu pensamento, já estava lá, mas o corpo não seguia, não ia junto. A partir daí é um trabalho individual, para cada pessoa, mas a gente pode ver que nessa estrutura relacional não é um problema mecânico, físico, mas uma questão relacional a partir da própria estrutura de personalidade. O trabalho é de forma que ele possa "soltar" essa obsessão e começar a viver "estar no caminho", vivenciar o caminho, e como fazer isso juntos.
Sobre a grande questão da sexualidade, enquanto psicoterapeuta, o mundo é muito vasto. Paul traz uma história de Freud, Jung e Reich, que não é verdadeira, mas que ilustra um pouco o espírito diferente.
Reich era a criança terrível; era médico, aluno de Freud, e num determinado momento, para ele tudo era a sexualidade. A partir de Reich, nos anos 60, todas as correntes da Bioenergética e os trabalhos corporais partiram do pensamento dele. Imaginem na Áustria, no final do século, um pequeno bistrô, com Sigmund Freud que olha por debaixo da mesa; ele acha muito interessantes os joelhos, as pernas - tudo o que está por debaixo da mesa, bem vienense, tudo muito correto. Ele começa a olhar por debaixo da mesa o que estaria escondido no inconsciente, e volta a cabeça para cima e faz as suas teorias, as suas teses sobre o que tem por debaixo da mesa. Vocês conhecem bastante as consequências desta história.
Carl Gustav Jung também coloca a cabeça por debaixo da mesa, e ele acha muito interessante os pés que tocam o solo; ele vai mais profundamente ainda, além do chão, nas bases profundas, no subterrâneo, e ele tinha muita dificuldade de voltar - Jung viveu estados bastante particulares, com momentos de crises psicóticas; ele mergulhava profundamente no inconsciente.
O pequeno Wilhelm Reich também olha por debaixo da mesa e acha formidável, fica extremamente excitado, e ele derruba a mesa; todas as taças, todas as louças se quebram. Desde então nunca mais serviram café para ele.
Falar de Reich hoje em dia, em termos acadêmicos é um tabu - muitas taças de café foram quebradas. Reich era provavelmente louco, mas de toda forma ele mostrou um caminho muito importante; ele focalizou toda uma atenção na direção da sexualidade, do corpo, da sensualidade, e na direção do orgasmo; para ele o mais importante para a vida era o orgasmo. Do ponto de vista do Paul, o problema nessa teoria é que "o orgasmo não dura muito tempo"; e a questão é "como a gente vive entre esses tempos". A refletir.
Reich escreveu muito sobre a função do orgasmo, e é interessante o aspecto sobre a tensão, carga e descarga. A tensão é certamente a acumulação, e nós perguntamos o que é isso. Falamos que é uma acumulação de energia, um potencial de movimento, certamente orgânico, como uma tensão que é carregada de uma potencialidade que está retida, seguida por uma descarga. O que é interessante nesta simplicidade de tensão/carga/descarga é que podemos transpor, ir além da sexualidade. Se olharmos unicamente para a sexualidade, podemos nos perguntar o que cria tensões na gente, tensão, excitação, tensões sexuais, sensuais; o que é a carga que se acumula, e o que é a descarga. Entre a questão da carga e da descarga, em termos da sexualidade existe um grande mundo. Ele vai tentar elaborar entre a sexualidade o que é mais psicológico.
Entre a carga e a descarga tem alguém que traz um élan sensual, da sensualidade, um desejo, uma pressão, uma pulsão; e a questão é como cada um vive, como administramos, como evitamos, como recalcamos. Isso nos faz pensar no trabalho de Freud, e o que nos estimula em termos da carga sexual e o que acontece em termos de descarga. Será que é necessário descarregar? É um pequeno parêntese, mas é um grande tema.
Muitos homens têm a tendência a essa pressão de descarregar, e muitas mulheres têm a tendência de querer fazer circular em si mesmas. Podemos falar de uma
experiência libidinal - ele fala da noção de Freud trazendo o tema da libido, uma forma de prazer, uma alegria, um contentamento, ou mesmo um desejo que está em si; também podemos fazer uma referência em termos de auto-erotismo, por exemplo, podemos simplesmente caminhar na rua e sentir uma experiência libidinal. É uma coisa que ele acha que nós aqui no Brasil conhecemos muito bem - na França, na Alemanha, na Inglaterra, eles perdem muito desse tipo de experiência libidinal, e para eles o Brasil representa precisamente essa sensualidade em si mesmo. Paul pensa que é uma cultura formidável essa possibilidade.
Agora vamos falar do que ele chama uma
relação libidinal. É na relação com o outro que sentimos essa libido; é no jogo com o outro, é em relação com o outro que essa libido circula. Podemos pensar em termos das crianças que brincam juntas, mas o jogo adulto homem/mulher, homem/homem, mulher/mulher, é também uma questão de identidade sexual, mas vivido como uma experiência libidinal na relação. Percebam bem que a primeira forma é muito diferente, porque é em si a partir de dois fatores: um é a auto-estima, ou o lugar do erotismo. Isso pode acontecer quando vocês cruzam com alguém na rua: um pequeno olhar e vocês sentem alguma coisa no corpo; vocês continuam a caminhar e vocês sentem uma sensualidade, uma libido em vocês; mas não é relacional. No segundo caso, a relação libidinal é ficar na relação com o outro.
A terceira forma é
sexualizar a relação, e um quarto tópico é uma
relação sexual. Sexualizar a relação quer dizer começarmos a pensar a cena primitiva. As imagens do ato sexual primitivo emergem, e esse aspecto é bastante forte porque pegamos imagens ligadas ao outro no ato sexual. Isso pode ser feito na relação, ou depois da relação - fantasma sobre o outro. Tem pessoas que obsessivamente se colocam no mundo de forma a serem gravemente atingidas, obcecadas pela imagem de alguém no nível do ato sexual. Ele se lembra de uma pessoa em terapia, na França, uma mulher, que rejeitava os homens e ao mesmo tempo os seguia; ela sofria terrivelmente com isso - ela não podia ter uma relação sexual, mas ela sexualizava a relação. Ela seguia à distancia os homens através de seus fantasmas, e isso era muito grave! Ela fez uma tentativa de suicídio porque ela detestava nela essa parte que buscava isso.
A sexualização da relação é ao mesmo tempo mobilizante e estimulante. Isso desestabiliza porque talvez o outro tenha uma relação libidinal e você sexualiza a relação, e aí existe um problema: o
A brinca com a relação no nível da libido, e o
B sexualiza. Se o
B sexualiza indo embora, os seus fantasmas ficam ainda bem mais fortes, e a relação vai ficar muito contraditória.
Depois do ato sexual, qual a relação que sobra? Isso é uma grande questão. Depois da tensão, carga e descarga, o que é que fica da relação? Será que é apenas um ato sexual, sem relação? Conhecemos isso nas violências, nos estupros. Paul viu um documentário sobre a África do Sul onde um terço de todas as mulheres negras da África do Sul foram estupradas. Isso é um ato sexual, e não uma relação; existe tensão, carga e descarga, mas sem relação.
A questão que se coloca é entre a "relação sexual" e o "ato sexual", e a resposta em termos da relação sexual enquanto
relação é: - o que é que fica depois da descarga? O homem pode dizer: 'ah, agora eu vou embora, eu tenho um trabalho para fazer'; ou é ela que precisa fumar um cigarro! Quais são as primeiras palavras que falamos, que colocamos depois do ato sexual? Foi bom? (Risos).
Paul não sabe se Deus se ocupou do sentido do sentimento. Em termos do sentido do sentimento forte que é a relação sexual, aprendemos durante séculos sobre a importância da procriação, e em conseqüência, se não existisse prazer na procriação, não temos certeza se teriam tantas crianças no mundo. Então, pelo menos existem sensações fortes com conseqüências: isto cria ("sacrée") e sagradas também: as estruturas sociais, os tabus, criaram muitos dogmas.
Em relação ao tema da sexualidade, como administrar a liberação sexual? Aí se colocam muitas questões: primeiro, é necessário uma liberação no nível cultural - mas não é certo que a liberação em si seja a finalidade. Ele vai dar um espectro das complicações e algumas visões que talvez possam ajudar na vida de vocês, ou que ao menos vocês possam se situar em relação a esse tema.
A sexualidade é a manifestação de um desejo, que no sentido profundo é de criar uma criança, mas que para nós o ato do prazer é conscientemente mais importante. Então fazemos amor sem forçosamente querermos fazer crianças. Podemos pensar se há uma evolução na nossa sociedade porque, culturalmente, é recente o homem aceitar a mulher tendo prazer; é totalmente recente - século XX. Era o homem que tinha o desejo, e não a mulher. Então o desejo se transformou em motor; temos no motor do desejo, o prazer, os fatores de busca do prazer na direção de um contentamento, e então voltamos sobre a questão da tensão, carga e descarga, mas de uma forma mais ampla, mais vasta do que unicamente a sexualidade. Podemos nos perguntar o que são os elementos da nossa vida que nos trazem prazer, ou que nos trazem esse contentamento? Nós sabemos que a sexualidade se modifica com a idade; Paul tinha uma pessoa em terapia em Los Angeles, ela tinha 76 anos e se lamentava que seu amante de 86 anos não fazia amor suficientemente; e ela não sabia o que fazer! Será que é uma obsessão?
Vamos primeiro nos perguntar: - o que é que nos faz bem? Será que é apenas a sexualidade? É a experiência libidinal? A relação libidinal? A sexualização da relação? O ato sexual? Podemos nos perguntar como vivemos a nossa existência a cada instante. Será que trabalhamos muito no escritório - é uma tensão, uma carga, e depois a gente descarrega? Muitas vezes não é apenas sexual; a gente descarrega numa raiva, numa angústia, numa desconfiança etc. Como é que a gente vive o nosso bem-estar? É previsto que a gente deve estar bem, filosoficamente, mas será que faz parte da nossa própria filosofia pessoal, nossa crença, nossa religião, que a vida é estar bem, ter bem estar? Sabemos que em algumas crenças a vida é um sofrimento - ainda que seja um sofrimento que precisamos atravessar, não é muito brasileiro. A vida na Europa é primeiro trabalhar; depois é pensar para trabalhar ainda mais; depois temos dois meses de férias e todas as pessoas vão para o mesmo lugar nas férias, e é um trabalho para encontrar um hotel, um restaurante, uma praia etc. Resumo: - qual é a nossa filosofia de vida? Será que temos valores de estar bem? Será que buscamos sensações fortes, extremas, sensações na sexualidade que nos lembrem do corpo?
Muitos homens que trabalham cerebralmente encontram no álcool e na sexualidade o retorno na direção do seu corpo. Encontramos freqüentemente os casais na relação amorosa com a sexualidade muito forte, que atrai a ambos, mas depois de um certo tempo, para a mulher a sexualidade muda - é mais entrar e sair das lojas sem forçosamente precisar comprar; e para o homem é: 'eu preciso chegar, conseguir'- o que não é muito cômodo para a mulher no ato de amor. Desta forma o homem encontra o seu corpo. Essa sexualidade funciona freqüentemente como uma descarga; não é o desejo, não é o amor, mas é a descarga das tensões, o que ele reteve em si mesmo. E aí voltamos nas bases teóricas de Reich - tensão/carga/descarga. Se olharmos para a relação, seja libidinal, sexualização, ou experiência libidinal, vamos encontrar estruturas muito interessantes e importantes.
Em termos do Édipo, podemos pensar três fases muito importantes - simples em dizer e complexas na vida: as fases
pré-edípica, edípica, e pós-edípica.
Pré-edípica é a fase da criança com a mãe numa relação de bem estar; é como uma experiência libidinal, não é exatamente uma relação libidinal - está na base; é um estado essencial de bem-estar - se estamos de acordo que bem-estar seja uma boa filosofia. Tudo o que vem de fora incomoda; esse bem-estar é uma continuidade de uma segurança dada pela mãe e que constitui uma segurança ontológica, na base. Recriamos isso na nossa vida adulta; voltamos para casa, criamos uma segurança, um bem-estar na nossa casa, no nosso sofá, no nosso apartamento, e também na relação. Neste ponto se torna um pouco complicado porque o outro pode incomodar essa segurança ontológica, e aí intervém o fator muito importante que é o engajamento, a segurança ontológica relacional. A sociedade e as religiões criaram isso para nós - a fidelidade; significa amar o outro pelo melhor e pelo pior, o que não é sempre o prazer, mas isso cria essa segurança ontológica relacional, que é fundamental. Mas essa segurança ontológica pode fazer com que a libido sexual adormeça, porque para o bebê essa sexualidade não é genital; é mais oral e se manifesta numa experiência global, sensorial para o corpo - não é muito sexual. Em conseqüência algumas pessoas vão encontrar um bem-estar que não é sexual. Se o outro é muito sexual pode trazer muitos problemas: quando uma pessoa é bastante sexual e a outra está mais localizada num estado pré-edípico.
O conflito edípico - o vestibular passamos uma vez, mas o Édipo, atravessamos várias vezes -, no Édipo a menina vai pegar o lugar da mãe intrapsiquicamente, mas ela vai colocar isso no nível do real; a competição com a mãe, para se colocar no lugar da mãe, para ser apreciada pelo pai, que é, teoricamente, o segundo objeto de amor; ou o homem o mais próximo da mãe - pode ser também um pai imaginário; é complexo. Então ela vai competir com a mãe, e mais tarde, quando ela for novamente fazer o vestibular dela, o Édipo, ela vai ter muito ciúme de uma outra mulher; ela vai ficar em conflito, ela vai brigar com a outra mulher; e se o homem estiver dormindo, se ficar numa fase pré-edípica e ela estiver numa fase edípica, ela vai imaginar que ele está fantasiando com uma outra mulher. Ela não sabe de nada, ele está dormindo sexualmente e ela vai criar esse fantasma - que ele tem outra mulher; e ela vai até escolher quem é essa outra mulher, dessa forma ela sabe com quem ela vai discutir, brigar para ganhar. Isso não é apenas uma vez na vida, tem fases - todos os anos, de dois em dois anos. É a história do restaurante quando ela diz: "é maravilhosa essa mulher"! Ele diz: "eu não vi nada". Ela: "ah, você viu sim". Ela recria o que ela fez.
Existem mulheres, como homens, que fazem esse exame do Édipo, mas que constantemente não conseguem passar; a dificuldade de fazer essa passagem do pré-edípico para o edípico, ou seja, é sempre uma outra mulher que ganha, sempre outra, como sendo a mãe a única mulher que tem o lugar; isso é terrível! Quando o homem fala "você é bonita", - "ah, você não viu a minha mãe". Fazendo terapia talvez ela não fale - ela pode pensar, mas não vai falar mais; talvez um ano mais tarde ela poderá deixar de pensar isso. Essa é a nossa esperança. (Risos).
O sentimento de não poder ser amada enquanto mulher - infelizmente ela pode até criar um corpo muito pré-edípico, um corpo excessivo, não sedutor, que não convide à relação amorosa, ou simplesmente a imagem contra ela mesma. Em conseqüência ela tem medo da relação libidinal; ela pode até ter uma experiência libidinal no pré-edípico, com chocolate, com doces - é a história da compensação.
Existem muitos homens que não saíram desse pré-edípico, ou do conflito edípico, no sentido que eles ou ficaram dominados pelo pai que mantém o lugar, e ele fica sempre sentindo nele mesmo o menino pré-edípico. Talvez ele tenha sido criado como sendo o pequeno homem da mãe, o que é bastante freqüente, onde a mãe apóia o menino e ele se transforma no pequeno homem da mãe, como se ele fosse melhor do que o pai, como se ele tivesse ganhado do pai - mas foi apenas no olhar da mãe que ele ganhou. Então, é a mãe que cria o homem. O menino que adora ser criado pela mãe como um pequeno homem, como o pequeno rei local, ele sai para a vida e vai procurar uma mulher que vai sempre dizer que ele é "super". E no momento que ele não for tão "super" assim com a sua mulher, então ele volta para casa, para a mamãe, que lá ele vai ser sempre o "super". (Risos).
Então ele regride, ele volta para o pré-edípico acreditando ter atravessado o Édipo, mas na realidade ele nunca entrou no lugar do homem, porque ou o homem não estava lá, ou ele estava excessivamente presente, contra ele, e a mãe o protegia. Numa linguagem simples, dessa forma o homem não fez o divórcio com a mãe dele, e é também o tema onde as mulheres precisam fazer o divórcio com o seu pai. Passar o Édipo, se colocar no lugar do mesmo sexo do progenitor face ao progenitor oposto para se sentir efetivamente homem ou mulher, diferente dos pais. É extremamente pertinente essa história se vocês começarem a refletir nos possíveis conflitos das relações sexuais e amorosas, porque isso volta fortemente na sexualidade nos diferentes níveis que ele nomeou anteriormente: na experiência libidinal, na relação libidinal, na sexualização da relação e na relação sexual, e não unicamente ato sexual. Trata-se precisamente dessa auto-estima enquanto homem ou mulher, libidinal, com desejo, valores, o amor, a sensualidade e as sensações fortes. Ele não está na questão do sentido profundo de procriar, que é um outro nível.
No conflito edípico a pessoa tem necessidade de se confrontar com o mesmo sexo para se apropriar de um lugar, ou seja, ser mulher não é um lugar dado, e ser homem também não é um lugar dado; é um lugar a se habitar. Muito importante! É um lugar a se habitar! Habitar significa liberar esse espaço para si. Felizmente muitos processos que ele está falando nessa linha pré-edípica, edípica, e pós-edípica, se passam num nível intrapsíquico, e se tornam conscientes quando a pessoa se coloca aberta para o seu inconsciente. Não precisamos passar constantemente de forma manifesta na vida real, porque isso aparece nos sonhos, no nosso mundo intrapsíquico; o problema é que trabalhamos tanto, e estamos tão ligados à realidade que isso não significa que estamos em contato com os nossos sonhos, com o nosso processo intrapsíquico.
Um exemplo para falar sobre o
pós-edípico: é um homem, ou uma mulher, que tem identidade e que não se sente ameaçado pelos conflitos edípicos do outro. O conflito edípico é um motor na nossa sociedade. Na América, ser o primeiro economicamente, é quase uma filosofia no país, e a gente encontra em outras formas não tão fortes, no trabalho, na indústria, na economia, na política. É um motor muito importante; sabemos que o espermatozóide com o óvulo criam uma criança, mas é o primeiro espermatozóide que chega! É uma verdade!
Como então viver, e como coexistir. Vemos muitos conflitos edípicos na nossa sociedade. No pós-edípico, o lugar é além: alguns estão brigando, e outros estão numa certa aceitação. A diferença do pós-edípico é que você atravessou o conflito, e você chegou numa segurança que não é tão segura assim; é uma segurança que está mais em você do que em torno de você. É uma enorme diferença; você não pede que todo o mundo te assegure - está em você.
Em determinados rituais em países africanos, no Tibet, o menino vai para a floresta, ou para a montanha, para aprender a sobreviver. Passamos por vários rituais para ir encontrando essa segurança interna num mundo que não é seguro. O que se encontra muito fortemente numa relação de casal, é perguntar ao outro se eu estou ok, projetar e pedir ao outro que me assegure. Isso é uma demanda de segurança ontológica do pré-edípico.
Em relação à segurança interna face ao imprevisto, que um homem e/ou uma mulher possa dizer 'olha, você não é bonito', ou, 'eu não gosto muito de você', será que você volta lá para o pré-edípico, ou para o conflito, a confrontação, ou você tem uma segurança interna?
Obviamente sempre têm níveis. Um exemplo: uma mulher que ultrapassou esse conflito, que trabalha num escritório, e tem uma outra jovem que está na sua fase edípica, com uma saia bem curtinha, e que vai seduzir o chefe. Essa mulher se diverte com a jovem fazendo esse jogo; mas num determinado momento essa jovem começa a falar coisas negativas em relação à mulher, a se apropriar de determinados trabalhos, e começa a se colocar em confronto, num conflito edípico com essa mulher. Tem um limite onde ela não pode ficar tão elegantemente nesse pós-edpiíco. Então ela volta lá para o Édipo e começa a se afirmar: "olha, não é bem assim"; - e novamente estamos numa passagem.
Em relação à questão da segurança no nível pré-edípico, da insegurança, do ciúme que é muito excitante em termos do conflito edípico, e de uma certa serenidade, uma auto-estima no pós-edípico, é interessante observar onde cada um está na sua própria vida, na relação de casal, ou quando estamos sozinhos. Algumas pessoas voltam no pré-edípico, na sua solidão, enquanto outros estão constantemente no conflito. Ele conhece muitas pessoas em terapia, que vivem bem a sexualidade enquanto amantes - há mulheres que estão sempre querendo homens casados - que vivem uma sexualidade maravilhosa -, mas um certo tempo depois o conflito edípico se torna insuportável porque ela é disponível para ele o tempo todo, e ele está sempre ocupado - ele vem e de vez em quando precisa sair. Com a mulher dele ele tem só tensão, nenhuma carga; tem muitas pessoas nessa situação. Para o homem pode se passar bem na sua história pré-edípica e edípica; ele está com a sua amante e ele pode viver o homem sexual que procura se divorciar da sua mãe, que é a sua mulher. Ele está sempre super para essa amante, e antes que isso fracasse, ele vai embora para sua mulher/mãezinha - tem três filhos, mais ele. (Risos).
A sexualidade enquanto tema, essa noção de tensão, carga e descarga, pode ser ampliada. Paul trabalhou muito e criou o modelo do Círculo Psico-Orgânico, que é bastante fundamental, porque toca precisamente a questão da energia afirmativa que sobe no corpo, cria uma carga, e o que ele chama defluxo, o relaxamento, a energia que desce - encontramos isso na sexualidade, e a cada instante. Ou seja, a energia que sobe no corpo está ligada com o "eu"; isso tem uma força, isso cria uma tensão, e essa tensão vai passar para a expressão na direção de uma descarga, o que podemos chamar de um relaxamento que faz com que o ato seja cumprido, terminado.
O tônus é a energia que sobe; é o mesmo princípio, por exemplo, quando ele toma uma caneta, faz um movimento de subida, usa a força, sobe, e agora tem uma expressão - pode ter várias expressões, pode lançar a caneta, pode deixá-la cair -, e a caneta chega num ponto. No nível sexual, não foi muita coisa enquanto orgasmo, mas a caneta chegou ali. No ato sexual, a energia que sobe, que é estimulada, (em baixo tem a pélvis), é um movimento na direção do defluxo, da satisfação através de uma tensão que chega numa forma de dissolução, sem forma, e se perde no outro para depois novamente reacumular.
Não dá para descrever inteiramente o círculo, mas do ponto de vista corporal, temos a tensão que procura se expressar na direção do outro, em termos do
conceitual, do
emocional, e do
sexual. Existem três grandes eixos na sexualidade:
genital, coração, e conceito, para que todo esse movimento possa se fundir num defluxo, num descanso; o pensamento -
conceito, o coração -sentimento, e o nível do instinto - necessidade profunda sexual.
No início, o homem e a mulher primitivos seguiam a sexualidade como um instinto. Criamos um conceito, o "objeto sexual", e temos sentimentos em relação a esse objeto - ele está falando do objeto sexual no bom sentido desse objeto, que cada objeto em si seja um "sujeito", porque tem pessoas que infelizmente pegam o lugar de objeto sem ser sujeito, e tem pessoas que negam que o objeto também seja um sujeito. No início da relação amorosa sexual, é muito forte o instinto e o conceito ligados à cena primitiva - um corpo bonito, uma sensualidade, as nossas imagens arcaicas que projetamos no outro. Isso vem de longe, do nosso mundo simbólico, com a emoção, com o sentimento; e isso se torna complicado porque quando os três estão juntos é extremamente forte - quando o instinto primitivo é estimulado com o amor e com o conceito que integra o outro.
Isso pode acontecer no início da relação, entre conceito, sentimento e sexualidade. O homem delega freqüentemente o mundo sentimental para a mulher; ou será que é ela que o toma para si? Ele deseja manter o conceito, o controle, o saber - é uma função para ele, talvez um pouco neurótica -, mas ele gosta bastante de saber; ele se estrutura muito no conceito. Muitas mulheres gostam de se sentir orgulhosas do homem, então elas dão o conceito, o pensamento para o homem, e ele sabe; e se ele não souber elas acreditam que ele saiba - não é possível ele saber que ela sabe que ele não sabe (risos). Ali ele perde muito corpo, mas como ele fica muito no conceito ela é cada vez mais aquela que sente - ela
sente, e ele
sabe. Então ela tem a tendência de desenvolver excessivamente o sentimento; freqüentemente ela é muito mais sensível do que ele, mas é também uma função, de ser uma boa mãe, de estar próxima das crianças, de sentir as crianças. Ela desenvolve em excesso as emoções, e ele explica como funciona - ele adora isso!
Ele, para encontrar o corpo, passa para a sexualidade; ela, para se encontrar, vai buscar mais conceito, e a dificuldade é aceitar a sexualidade, o sentimento, sem conceito; é um grave problema porque ela se torna o corpo e ele se torna o conceito. Depois de um certo tempo ela desenvolve em excesso a sensualidade, as emoções, e às vezes nem pode mais fazer amor com ele, porque ela se torna o "objeto/corpo" e ele o "conceito/controle/saber".
No caso que ele citou no início, o homem estava muito no conceito, criou um mundo imaginário, uma imagem do ato de amor - nem no corpo propriamente, na imagem. A mulher estava muito na emoção, e ele, no pensamento do ato do corpo - e aí eles não se encontravam nunca. Na relação amorosa, em termos sexuais, será que a mulher pode recuperar o conceito, ser uma pessoa que pensa, que tenha uma certa vigilância conceitual, e que o homem possa fazer face a essa parte na mulher, e não regredir para o arcaico primitivo voltando a ser o pequeno menino, na direção do pré-edípico?
Tem duas partes no homem: uma muito funcional - "eu faço muito"; e lá em baixo, "eu me deixo ir completamente". Esses são grandes problemas na relação sexual. Depois de um certo tempo existem conflitos no casal, que fica quase impossível fazer amor. Desavenças entre os dois, onde têm cargas emocionais conflituais, o que chamamos de "energia residual", aquela que não pôde ser expressa - raivas, violências, sofrimentos. Isso traz muitos problemas em termos sexuais, porque a sexualidade pode se tornar uma forma de revanche - a mulher que expressa a sua raiva em termos de uma recusa da sexualidade. Existe muito isso na Europa, as mulheres que retém a sexualidade como uma revanche, para se vingar, ou o homem que se torna violento, que utiliza a sua mulher como objeto de amor mal amado, com agressividade abusiva, como um objeto. É importante pensar como os dois podem zerar o contador, para liberar os conflitos que não foram ditos - ali existe um trabalho muito importante que ultrapassa a questão sexual. Os psicoterapeutas trabalham muito neste sentido, cada um individualmente, mas também na relação.
Outra coisa que ele quer evocar é que na relação sexual entre os dois, há também longos períodos onde a sexualidade pode ficar recalcada. Uma pessoa, por exemplo, fixa uma imagem idealizada do outro e recalca a sua sexualidade - não tem mais. Isso é uma grande questão filosófica. Será que a vida é baseada no prazer, desejo e sexualidade? O que é certo é que não ter mais desejo sexual, ou nem mais uma experiência libidinal, é um sofrimento em silêncio - isso é muito importante.
Há uns dois anos atrás, em Lion, foi feita uma pesquisa científica sobre o funcionamento cerebral, com duas categorias de pessoas: uma categoria que dizia não ter desejo sexual algum, e outra categoria que dizia ter desejo sexual. Eles analisaram as atividades em determinados locais no cérebro - um lugar que se chama "orbital" e outro "singular". O
orbital é um espaço no cérebro onde as impressões são trazidas e avaliadas enquanto "desejo", ou "não desejo", "é atraente, ou não"; a outra parte, o
singular, compreende as decisões de agir: "eu vou", ou "eu não vou". Nessa pesquisa, a grande surpresa foi que as pessoas que diziam não ter desejo tinham a mesma atividade cerebral que as pessoas que se diziam desejantes. Não é uma questão de "não ter desejo" - eles tinham o mesmo desejo. A grande surpresa é que as pessoas que diziam não ter desejo, tinham uma super-atividade cerebral sobre aquelas que diziam ter desejo - elas ficavam ligadas no "eu vou, eu não vou?" "Vou, não vou?" Isso é um estudo precioso - não é uma questão do desejo. Eles tinham o mesmo desejo, mas eles ficavam se negociando: "eu vou ou eu não vou?" A conclusão é que eu não pude ir - eu gostaria, mas eu não pude. Isso dá muitas razões para a psicoterapia. A grande questão é se estamos em contato com o desejo; é onde vivemos.
Vocês foram formidáveis de ficar aqui. Nesse último tema que ele quer colocar, imaginem bem a sexualização da relação, como uma pessoa pode criar fantasmas - "eu vou/eu não vou?" Existe todo um mundo na fantasia - possível ou impossível; possível num outro momento, mais tarde, se acontecer assim, ou assado, ou a impossibilidade de fantasiar. Como o corpo fica na retenção, os fantasmas continuam até a pessoa ficar obcecada pelas imagens que depois são recalcadas e retornam na violência ou na deformação, em termos do álcool, das drogas, por exemplo. A história das drogas é cronicamente a procura do pré-edípico. Paul diz não ter falado sobre o tabu do incesto, que é a questão das regras, o porquê das regras.
Espaço aberto para questões.
Questão - Como é a diferença entre a experiência libidinal e a sexualização, quando cada parceiro está vivendo direções opostas?
Paul - Alguém pode sexualizar uma relação comigo; ou seja, tem imagens, ou intenções, ou fantasmas do ato sexual. Por exemplo, o outro pode ter uma relação libidinal, sentir-se libidinal com uma pessoa, mas não sexualizar a relação; isso significa que ao tocar em alguém (Paul toca no ombro da Silvana) esse movimento pode ser libidinal, e também esse mesmo toque pode ter a intenção sexual. É como cada um sente esse toque. A mesma coisa acontece com um olhar, e então volta a questão edípica. Se um dos dois está constantemente no conflito edípico, alguém vai sexualizar a relação.
Sexualizar a relação pode ser importante para algumas pessoas; por exemplo, você vê um homem bonito, você pode ter uma relação libidinal, ou, você pode nem conhecê-lo e ele pode pensar num ato sexual, que você não faz, mas o outro sexualiza a relação. Você não vai vê-lo mais, você não tem uma relação real, mas isso pode despertar a mulher, pode tocar o simbólico e o imaginário, e isso é muito importante.
É muito diferente quando ele fala de uma relação, ou de um ato, ou quando você é estimulado por alguém. Você pode ser estimulado por uma foto, por um filme, e você pode sexualizar, no teu mundo imaginário, uma relação que acorda a mulher dentro de você; quando você olha e vê que o teu homem não é lá aquelas coisas, você pode se decepcionar; mas o importante é que a imagem de um homem acordou alguma coisa de feminino, de mulher. Paul se pergunta se talvez não seja isso o mais importante, que o outro desperte alguma coisa nele, que a mulher revele, desperte o homem nele.
Questão - Como situar a ejaculação precoce dentro do círculo exposto?
Paul - Existe a tensão, a carga e a descarga. Esse é o corpo total. A questão da ejaculação precoce é uma ansiedade conceitual, onde a pessoa tem uma ansiedade de não estar à altura de ser amada, e para o homem, de não ser acolhido pela mulher, de não obter esse defluxo total. Nessa ansiedade ele descarrega muito rapidamente, muito localmente. O nível do instinto é um nível muito primitivo ao qual ele não segue;
isto sai, mas ele não acompanha. É um momento muito regressivo; o que não está construído ali é o "eu". Ele fica muito dependente do olhar da mulher, e também podemos explicar como um menino que faz alguma coisa no cantinho, em segredo, para a mamãe não ver. A relação amorosa fica comprometida - não tem relação.
A ansiedade que se torna muito grave, forma um bloqueio, uma negação, no conceito e na área sexual; esse bloqueio pode ter fontes distintas: ele pode ficar muito retido - "eu não te dou". É freqüentemente uma grande cólera - e o bom endereço não é exatamente a mulher que está com ele; é uma antiga cólera. Ele retém, ele mantém e guarda essa força que não sobe na expressão ao nível da sexualidade genital. Isso pode se tornar uma forma de tensão contra si mesmo, como se ele não tivesse desejo - fica aquela questão do "eu vou, ou eu não vou".
De que forma ajudar? Freqüentemente a terapia não é relacional. O importante é que a própria pessoa procure; a mulher pode insistir para que ele faça uma psicoterapia - mais uma vez ele faz o que a mulher está dizendo, mais uma vez ele se sente castrado -; mas é ele que faz ela dizer. É importante que ele vá por ele mesmo; é difícil para a mulher porque na realidade ela não pode dizer nada; ele até pode perguntar pelo endereço, para recriar a mesma estrutura; é um duplo jogo.
Sobre esse tema, ele pensa que o trabalho relacional seja mais importante, curiosamente. A diferença é que aqui a pessoa tem que encontrar a si mesma, e no outro caso é encontrar-se face ao outro, o que é muito diferente.
Questão - A partir do princípio do trabalho da potência orgástica, de Reich, podemos considerar a impotência, a ejaculação precoce, e a ereção sem afeto como construções da mesma neurose? Como você vê isso?
Paul - Reich tinha a crença que se a pessoa tivesse um orgasmo completo ela seria saudável, o que, com toda a evidência, é falso. Conhecemos pessoas com orgasmos fortes, potentes, totais, e que são bastante neuróticos. Vou contar uma pequena história: um operário, que tinha um problema, procurou uma terapeuta que fazia supervisão com Paul. Esse operário tinha uma mulher muito bonita, e todos os seus colegas de fábrica faziam gozações porque ele era pequeno, feio, e tinha uma mulher linda! Ele não conseguia fazê-la engravidar - ele tinha problema de impotência e sempre era perturbado pelos colegas. Durante a terapia ele começou a se movimentar, a energia corporal circulou, e um dia ele falou: "pronto, ela engravidou!" A terapeuta felizmente não perguntou com quem, mas ela ouviu surpresa esse homem bastante neurótico falar: "bom, agora já está tudo bem, vou terminar a minha terapia". A terapeuta ficou muito decepcionada porque embora o problema de "engravidar a mulher" estivesse resolvido, o cliente foi embora tão neurótico quanto chegou.
Paul pensa que o problema sobre a sexualidade não é uma medida, uma chave em relação à saúde; é um problema específico, uma manifestação de uma problemática freqüentemente mais ampla, pessoal. Não é resolvendo o problema sexual que se vai resolver o problema psicológico e relacional. Vemos muita violência nos casais, masoquismo - uma sexualidade muito unificadora e satisfatória -, mas eles vivem uma relação de agressividade, de sofrimento, de humilhação. Paul prefere pensar a sexualidade como uma manifestação da nossa energia vital, mais do que uma maneira de viver os momentos preciosos da unificação, de alguma coisa que nos ultrapassa.
Na direção com o outro temos a noção de um estado, ao qual raramente chegamos, mas em todo esse movimento tem essa vivacidade celular de existir. Enquanto seres, precisamos dessa sensação, senão o perigo é o homem e a mulher se tornarem um "pensamento". O perigo é que o homem pense a sua existência ao invés de vivê-la.
É isso que ele queria deixar bastante claro com as fases libidinais, e nesse sentido, o ato, a relação sexual, não é tão importante. O orgasmo em si não é tão importante, mas é uma noção muito importante, e nos aproximamos disso. É como um banho; tomamos um banho, é formidável, mas não dá para viver debaixo do chuveiro; e felizmente o mundo é criado pelo orgasmo - isso é verdadeiro, mas não é apenas orgasmo.
Paul diz que, enquanto europeu, é delicado expor um tema sobre a libido, aqui no Brasil, porque aqui há uma sociedade muito libidinal - que ele adora -, e levar isso para a Europa é necessário; eles têm essa necessidade. Talvez aqui também tenhamos certos cortes, certas rupturas, e essas referências que ele pôde trazer talvez possam falar alguma coisa, porque viver a libido sem lei, sem forma, é a energia sem forma.
Essas são as reflexões dele sobre esse tema.
Aplausos!