Prática Social

O Toque e a Massagem Enquanto Instrumentos Terapêuticos - Um Projeto em uma Casa de Apoio à Crianças com Câncer


Breve Histórico - Instauração do Projeto

           Em Setembro de 2000 recebo uma demanda da parte da diretora da equipe de assistência psicossocial da Associação de Apoio à Criança com Neoplasia, Marly Chagas, para instaurar um trabalho corporal, num primeiro tempo voltado às mães - acompanhantes das crianças na Casa de Apoio à Crianças com Câncer. A Casa acolhe crianças e seus acompanhantes (que não habitam no Rio de Janeiro) durante o período de tratamento no INCA. Nessa época havia na casa o trabalho com musicoterapia funcionando há cinco anos. Sou psicóloga, psicoterapeuta corporal e coordeno a CEBRAFAPO (Centro Brasileiro de Formação em Análise Psico-Orgânica), onde desenvolvo a formação de psicoterapeutas corporais no método da Análise Psico-Orgânica. Junto com os meus alunos, todos profissionais na área de saúde, desenvolvemos um projeto de atendimento social a partir da Massagem Biodinâmica. E foi com esta equipe composta por oito terapeutas que aceitamos o desafio e a oportunidade para participar do atendimento psicossocial da Casa.
           Desde o início direcionamos o nosso trabalho no mesmo dia, ao mesmo tempo, em espaços distintos, para o grupo de mães e para o grupo de crianças. Irei agora focalizar as diversas etapas no desdobramento do trabalho com o grupo de crianças, que é o tema central desta mesa.
           Num grande primeiro tempo trabalhamos com as crianças na sala de recreação, um espaço definido para as atividades lúdicas. Pareceu-nos importante, nesse momento inicial nos integrarmos ao movimento que já existia; as crianças escolhiam atividades lúdicas livremente (desenho, pintura, livros, carrinhos, casinhas e uma máquina de vídeo-game), e tinha sempre uma voluntária presente na sala.
           Introduzir uma linguagem nova, diferente, vinda de pessoas inicialmente estranhas e que ao mesmo tempo fala, sem palavras, de intimidade, de proximidade, de contato. Tarefa delicada. Iniciamos pelo contato com a linguagem corporal, mas o corpo em movimento, na expressão lúdica, na comunicação dinâmica. Entremeando nesse brincar, fomos introduzindo a linguagem do toque, do contato tátil, inicialmente e a partir da massagem nas extremidades (pés e mãos). Lembro-me bem nesse momento de um grande urso que nos ajuda a criar este espaço transicional, a criança se deitava naquele ursão se entregando aos poucos à maciez daquele objeto e às sensações que emergiam a partir da massagem. O relaxamento que se produzia era admirável e algumas vezes chegavam a dormir. Aos poucos fomos compondo um espaço de maior confiança onde as crianças já deitavam sobre os colchonetes para receberem a massagem, um trabalho de toque sobre toda a superfície do corpo. Um toque delicado e respeitoso que foi ganhando demanda da parte das crianças e circulação (trocas de massagens) na casa.
           Num segundo tempo, quando esta linguagem já estava bem instalada, nos incomodava terrivelmente as máquinas de vídeo-game que dispersavam a concentração do trabalho. Propomos então uma mudança de sala, e a sala que já existia para musicoterapia agora se intitula sala de terapias. Dispomos os colchonetes no chão e as crianças recebem uma de cada vez um tempo de massagem, enquanto isso as outras aguardam e/ou a partir de nosso incentivo fazem massagem nos outros colegas.
           Mantemos a sistemática semanal, com sessões de uma hora e trinta minutos e atendimentos individualizados nos plantões semanais de dois terapeutas. Mesmo que muitas vezes o atendimento seja pontual, a casa sendo um espaço de passagem, acreditamos que algum efeito benéfico e restaurador fique registrado na memória somática dessas crianças.

           
Bases Teóricas que Apoiam nossa Prática.

           Nós nos apoiamos essencialmente sobre as teorias de Gerda Boyesen e Paul Boyesen que criaram respectivamente a Psicologia Biodinâmica e a Análise Psico-Orgânica. A integração desses enfoques nos permite a compreensão do ser humano no seu funcionamento enquanto unidade; o sistema orgânico, emocional e psíquico.
           As crianças atingidas pelo câncer vivenciam cortes profundos nos mais diversos níveis da sua realidade, do mais objetivo ao mais subjetivo. Desde o corte na sua rotina diária, vida familiar, escolar, social, até o que é mobilizado no seu corpo físico através dos inúmeros tratamentos, hospitalizações e as diversas repercussões na sua realidade subjetiva/simbólica. Sensações que se referem à fase original, primária da vida, são profundamente reativadas; encontram-se num estado de grande vulnerabilidade, fragilidade, dependência. Vivências de descontinuidade da existência, angústias de fragmentação, de morte, insegurança.
           A Massagem Biodinâmica é um trabalho terapêutico que, com técnicas e intenções precisas, irá buscar através do toque respeitoso e sensível, o reconhecimento do outro na sua existência mais profunda. Sendo a pele o mais extenso órgão dos sentidos do corpo e o sistema tátil o primeiro sistema sensorial a se tornar funcional, acreditamos na qualidade do toque como possibilidade de restauração da integridade do envelope corporal. A sensação deste envelope através do contorno da pele é ao mesmo tempo de ordem sensorial e simbólica, que visa envelopar o aparelho psíquico e exerce a função de continente. Este corpo aos poucos vai podendo se tornar permeável e receptivo às sensações positivas, agradáveis, prazerosas, que irão restaurar, na medida do possível, a confiança no corpo, a segurança interna, reinvestindo-se narcisicamente.
           Por outro lado, a Massagem Biodinâmica convida as crianças ao estado de relaxamento, de repouso, que busca harmonizar o ritmo do sistema nervoso parassimpático. A importância do relaxamento se dá no resgate da capacidade de auto-regulação do organismo. Nessa situação a respiração se amplia, o ritmo cardíaco diminui, a musculatura se distende, há uma melhor circulação energética. Supomos que este estado pode favorecer a aceitação e digestão dos diversos tratamentos pelo organismo. Pode colaborar igualmente na recuperação imunológica, posto que um organismo menos estressado tem maiores possibilidades de se fortalecer.
           Finalmente o nosso engajamento é com a potencialização da qualidade de vida destas crianças através do canal de contato afetivo a partir da Massagem Biodinâmica.

Silvana Sacharny


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